14 outubro 2009

Rosa dos ventos


1.
Algo que se passa no interior, aqui dentro: subjetivo, talvez, e não interessa a ninguém? Pois eu conto do vendaval que passou. As pessoas viram na TV os vidros quebrados do aeroporto, os aviões com as rodas pra cima, que coisa!, deve ter sido forte esse vento. Foi mesmo. Arrancou árvores ao redor da minha casa, lançou galhos e folhas por toda parte, quebrou as bananeiras, revirou tudo. Isso pode ser objetivo, material e externo para quem não vive na Terra. Leio Drummond: “o mar batia em meu peito, já não batia no cais”; mas há quem não sinta a revolução no mundo.
2.
Faz tempo. Madrinha me contou de um temporal no Alto Santo, em 1950. O vento derribou tanta árvore, que da janela do Mestre dava pra ver a casa do Chico Martins, lá embaixo, longe, quase encostada ao igarapé. Contou que o pai tinha ido pra mata serrar madeira e a mãe estava costurando umas roupas na casa da vizinha e vieram correndo quando ouviram a quebradeira. Vejam só, o mundo ia se acabando antes mesmo de eu nascer. Mas as casas não foram atingidas e ninguém se machucou. Outras árvores cresceram –e depois foram cortadas, os roçados eram grandes naquelas eras.
3.
Dizem que em 9 dos próximos 10 anos o verão amazônico vai ser mais quente do que está sendo neste ano de 2009. Serradilmaciro presidente vai mandar pendurar nos Andes um gigantesco aparelho de ar condicionado, movido a petróleo extraído das profundezas. E eu saio andando com o Davi, pelo caminho que ele roçou arrodeando a capoeira, procurando o melhor lugar pra construir um chapéu de palha. Precisa cavar pra ver se tem água perto e abrir um caminho até o açude. É meu PAC de sombra e água, minha infra-estrutura de desenvolvimento pra lá de humano.
4.
Quanto mais me misturo ao povo, mais aprendo as artes da sobrevivência. Um dia saberei o suficiente para mim e quem precisar. Por enquanto, vou tirando com o terçado os galhos mais finos e empilhando a madeira das árvores quebradas pelo vento. Ajuda a fazer uma cerca, um trapiche, uma escora ou mesmo um fogo pra cozinhar macaxeira. A vantagem de um vento assim é que as sementes se espalham. O terreiro está cheio delas, de todas as espécies, que vieram de longe.
5.
Entrei no Movimento Marina Silva, na internet, que já passa de dez mil associados. Nele vejo textos interessantes, de gente simples que quer participar de uma coisa boa e expressar suas esperanças e também de pessoas experientes ou até estudiosos de assuntos diversos, num fórum aberto a todos os pensamentos. Participei da Conferência de Cultura e juntei-me a um grupo de rebeldes que quer agitar a Conferência de Comunicação. Formalizei minha desfiliação do PT e vou assim desatando alguns nós que ainda me restringem a um tempo partido, para chamar Drummond mais uma vez, “tempo de homens partidos”.
6.
A tempestade de 1950 e a enchente de 1953 são reais e enriquecem minha memória. Também foi grande a alagação de 1911, ano em que foram quase extintos os Kuntanawa e Puyanawa que, hoje, entretanto, renascem com força e esperança. As crianças de agora são jovens em 2026, que seguram seus filhos nos braços enquanto me contam seus planos para 2050. E estes números serão simples marcações auxiliares em uma memória feita de terra, sol, lua, estrelas, enchentes, secas, tempestades, fome, fartura, doença, saúde, guerra, paz... breves e eternos momentos da vida neste planeta.
7.
Aprendo ainda que a esperança não tem medo de ilusões. Costumamos chamar as crenças alheias de superstições e às nossas superstições damos o nome de crença. Nossa ideologia é ciência, a ciência dos outros é ideologia. Nossos crimes são apenas erros, os erros dos outros são crimes. Nossas árvores só dão frutos doces, as dos vizinhos dão frutos amargos. Mas vem a tempestade e joga todas no chão, por igual, e as sementes por toda parte. Vejo, assim, que a condição para manter minha esperança é respeitar e esperança dos outros, mesmo quando me pareçam ilusões. É o tempo quem diz o que há de vingar.
8.
Enfim, estou içando velas e bandeiras para aproveitar o vento que, como dizem as escrituras, sopra onde quer. E quando quer.

18 comentários:

Mag disse...

Há muito sua narrativa não traduzia a força que habita seu coração e a nitidez do seu espírito. Que seja longo seu paradeiro nesse inóspito, porém luminoso território onde o vento sopra onde quer e quando quer.Sem ilusões, força e esperança sempre.

Marisa Fontana disse...

Nossa!!Faz tempo que eu não via um vendaval de palavras suas assim. Bons ventos o tragam e o levem.

LuHelena disse...

Rapaz, que vendaval de palavras, como diz Marisa!!! Fiquei toda arrepiada com o sopro do vento em sua vida... Bons ventos já o trazem, inspirando-o para ver o sol a lua, a chuva e a tempestade, num convívio harmonioso e tenso com as forças antagônicas da natureza. Para mim, a vida em sentido amplo reflete os movimentos dos ciclos naturais, dos astros, dos ventos, ainda que a força humana queira dominá-los. Isso nos ajuda a perder as ilusões do paraíso porque a natureza como os homens é saturada de desordens -não está jamais em equilíbrio, em estado de repouso... (há muito perdi as ilusões - iludir-se é pernicioso - mas não deixei de sonhar...).
Beijos,
luHelena

mvneves disse...

Gosto quando você dá asas ao seu coração historiador. Me faz esquecer essa besteira de passado- presente-futuro e lembrar que o tempo é uno. Assim volto a crer em bons ventos, ainda que em forma de vendaval...
Talvez tenha sido assim mesmo que um dia, há muito muito tempo atrás, os santos sábios (como diria o I Ching) aprenderam a abrir roçados nessa grande floresta...

Anônimo disse...

Tuas reflexões para mim têm toda uma conotação espiritual. Sinto em tuas palavras que teu espírito já viveu neste mundo muitas outras vezes. Ora para aprender, ora para ensinar! Apesar de não nos conhecermos, meu espírito absorve os ensinamentos do teu, através de uma sutil conexão: As tuas reflexões!
Obrigada!
CzSul.

Ana disse...

Ei Toinho!

8 é um número especial no universo!
Diz a numerologia que é o numero do infinito....
Arrisco dizer o óbvio!
Que é mais um (dos tantos) significado matematico do universo...

Teu texto tem 8 pontos, 8 itens, 8 reflexões...
Enfim um universo de significados e de possibilidades...

O numero 5 ...
soa como uma boa dose de reflexão+coragem+esperança+fé...
Fala de decisão...
Fala de partir...de ir embora...
de sair de um lugar, de um canto (antes encantado) de uma casa (antes aconchegante)...

Bem ...
Buena Sorte procê!!!
Bons ventos nos novos rumos...
Que ele sopre sempre...neste planeta da impermancencia...

E Boa sorte pra nós que (seguindo os teus passos) Marinamos e sonhamos com Bons ventos!!!

Anônimo disse...

É tempo de semear novas sementes e ver como a terra, os céus e o tempo dos homens reagem a esta tentativa.
Tentativa de salvar o que de subjetivo há na esperança de provocar vendavais interno que destronam nossas crenças, critérios do que é certo/errado...
alguns destes vendavais trituram minhas referências sobre você e o mundo.
É início de inverno amazônico, sinônimo de fartura entre as águas, entre as plantas, entre as criaturas, os entes que antes acreditavam. Deixaram de acreditar e, neste momento renovam-se, através de vendavais internos, dando a todos nós uma chance de evoluirmos, melhorando como seres humanos, preocupando-nos com todos, com o planeta, com o ontem, o agora e o depois. Boa sorte nasua caminha com Marina Silva...
Depois a gente se encontra e contabiliza o que aprendemos - ou desaprendemos - na convivência com a mediocridade do poder constituído

LuHelena disse...

Estimado Antônio,
Já acessei por mil vezes vossa bela reflexão, vossa bela escritura!!!
Não escrevo o que gostaria, à altura: oferecer-vos um poema de um pescador sobre os ventos, sobre os astros, sobre o movimento das marés... (não há espaço). Ah, "meus" pescadores, sábios dos ventos, sábios do tempo.
Saudações acreanas e curitibanas!
Luciahelena

Fernando França disse...

Rapaz, Seu Minino... me arripiei!!!
Tô pintando um grande retrato da Marina.
Abração

Rosa disse...

“O Sol brilhante Alumia o Céu e o Mar e seu Sagrado Brilho vem do Espaço Sideral!
E Tudo são Obras do nosso Pai Celestial!...”

Matthew Meyer disse...

Hey Toinho, obrigado pelas palavras belas que trouxeste. Admiro seu jeito de usar a inspiração nas falas, seja lá no salão ou nesse astral eletrônico que é a internet. Admiro, também, a sua coragem de seguir a amiga nessa direção. Parabéns. Que esse capítulo novo traga mais inspirações, que abra um caminho verdadeiro para quem ainda não deixou se extinguir a chamazinha que resta do que era a esperança pelo PT no Acre e no Brasil. Hugs from Virginia. Matthew

fernando lage disse...

Oi Toinho,

Quando me desencantei, pensei que estaria deixando muitos amigos pelo caminho. Enganei-me, o jarro da esperança estava so começando a esvaziar.Te leio sempre, cuida do coraçao machucado. Deus nos ilumine. A estrela que vivia ofuscada, agora resurgiu fulgurante no firmamento.

Anônimo disse...

Oba, meu querido poeta estavam preças no coração na alma na cabeça sem la onde todas essas palavras farses que bom ventos o troxeram sua simplicidade humanidade de recheam nossos corações...
O texto esta paravilhosso como tantos outros que ja tive o prazer em ler.

Grande abraço ex- companheiro.
Leila Ferreira "barrileia" como vc constuma falar

Anônimo disse...

Ex companheiro mas sempre amigo e companheiro de luta claro.

Leila

Anônimo disse...

Sonho Impossível
Chico Buarque
Composição: Joe Darion, Mitch Leigh (versão em português de Chico Buarque)

Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer
O inimigo invencível
Negar
Quando a regra é vender
Sofrer
A tortura implacável
Romper
A incabível prisão
Voar
Num limite improvável
Tocar
O inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão

Thiago Silva disse...

Toinho, palavras belas como sempre, articuladas com um brilhantismo peculiar à sua personalidade e algumas um tanto inesperadas. Como diz L.Boff, um partido é sempre uma parte. Mas pensava eu que essa parte sempre seria a sua predileta. Sou Marina sim! Partido, nenhum!
Pouco importa para mim essa política que não me faz germinar uma fagulha de fé! Não acredito, simplesmente.

O que vim comentar mesmo é que no meu jardim chegou um pouco desse vento que levou roseiras espinhentas e uma rama de joio indesejável.
O que brilha exclusiva é uma belíssima tulipa amarela, vinda de terras mineiras e que navega pelas ondas do alto mar em um barquinho tipicamente acreano!

Enfim, sarei.

Luz e paz meu amigo!
Que a inspiração continue jorrando de seu teclado para iluminar nossos devaneios...

Cochise César disse...

http://arte.lafactoria.com.br/about/

Um singelo convite. E um convite a convidar, se porventura vier a concordar com os objetivos do projeto.

Anônimo disse...

Bom dia Toinho!!!
Ainda não nos sentamos pra conversar, mas aguardo a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente... temos os mesmos ideiais...

"Seguimos todos unidos
Uns aos outros devemos amar
Que está para chegar outros mundos
De novas vidas... de novos mares
(...)
Como é tão linda a passarada
Que vem revoando em festa
Vem num Cortejo Divinal
Com a Rainha da Floresta"

É isso ai Toinho, vamos a luta, novas batalhas... mas com o mesmo ideal de coletividade e respeito ao SER... Que Deus nos abençoe com Sua força transcedente.

Abraços,
Prof. Francisco