27 dezembro 2012

Semedida

Intenso e um tanto estranho esse 2012, que gostei de encerrar com "Política Zero". Tenho lido a coleção de cronicas agora na forma de livro, tentado encontrar algo ali... e conseguindo, graças a Deus. Espero que mais gente encontre núcleos de densidade naqueles textos.
Não percebemos as mudanças, elas são sutis. Mas ao final de um tempo olho e vejo tudo mudado. Estranho e intenso ano, esse.
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De uma das crônicas do livro (se me perdoam a auto-citação):
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"A mudança sutil começa como uma mu­dança na própria sutileza: altera-se a medida de modo que o que sentíamos como leveza agora sentimos como peso e o que nem sen­tíamos –por ser etéreo- torna-se levemente sensível".

18 dezembro 2012

fiim

Fiz um livro, o nome dele é "Política Zero". É uma seleção das crônicas que publiquei em 2011 no jornal Página 20, intercaladas com outras mais antigas, dos blogs ou de velhos jornais. São coisas que venho pensando, nos últimos tempos, sobre política. Os textos antigos entram porque são insights, porque permanecem atuais, porque antecipam idéias que se firmariam no futuro ou, simplesmente, porque me agradam. 
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Diagramei, ilustrei com meus desenhos toscos, imprimi em computador e fiz cópias xerox das páginas. Minha mulher e minha filha vão costurando e colando. Eu mesmo saio às ruas vendendo a quem encontro. Minha sobrinha, meu sobrinho e os amigos prometeram organizar um sarau de lançamento no Casarão. Semana que vem, colocarei algumas dezenas de exemplares na Livraria Nobel. 
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Transcrevo o parágrafo final do texto de apresentação:


"O que espero com tal publicação, além de rios de dinheiro e fama mundial? Sinceramente, espero desencanar de vez da programação mental proporcionada por décadas de política, fechar essa conta em minha vida para poder inventar e descobrir coisas novas, outras formas de viver e pensar. De quebra, quero estimular outras pessoas dispostas a descolar-se das antigas plataformas. Mas fico contente se puder, ao menos, a cada crônica, proporcionar dois minutos de reflexão".

Compre, leia e dê de presente "Política Zero". 
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15 novembro 2012

mote


chá com porronca
madeira com pano
chamego com sono
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memória da água
gosto de língua
cheiro de cangote
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causo de como
dize que home
não diz te amo

13 novembro 2012

Antes e depois


Eu atravessei dois estágios diferentes no velho partido. A primeira foi antes de chegar ao poder, quando os comunistas estavam basicamente realizando uma revolução agrária. A única maneira de sobreviver e crescer era apelando ao povo, sobretudo aos camponeses, por apoio. Quando iam a uma vila, tinham de buscar água, varrer o chão, para mostrarem que eram um tipo diferente de partido.

Agora, eles não têm de pleitear apoio. A Constituição afirma que eles são o partido no poder, que você tem de seguir a sua liderança. Então, de servos, eles se tornaram os senhores do povo”.

A declaração (está na Folha online) é de Sidney Rittemberg, hoje com 92 anos, norte-americano admitido por Mao Tsé-tung no Partido Comunista Chinês em 1945.

Na China tudo é tão diferente...




19 outubro 2012

Idiomas

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Conversávamos sobre os antigos, suas histórias. Lembrei do que Raimundo Gomes me disse: “eu escovitei muito a vida do Padrinho Irineu, pra aprender de tudo”. Marina, mineira, perguntou o que é escovitar. É o mesmo que escacaviar, respondi acreanamente. E ela, ainda mais mineira: “ah, sei”. Com uma cara linda de quem sabia mesmo.
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18 outubro 2012

elipses

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Madrugada silenciosa no açude, ao céu estrelado.
Águas cálidas em meu peito, o Sete Estrelas sobre a fronte.
Quem me andava disperso, agora retoma o Oriente.
Ensino-me. Recito versos íntimos
deste catecismo poético que a Mãe escreve em seu corpo.
Água cura. Estrelas contam sabedorias.
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Jorrariam as palavras, líquidas e certas,
não fosse o silêncio a mais respeitosa reverência.
Acaricio cicatrizes de antigas guerras até que desapareçam
da memória da pele.
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Desde a terra, subo lentamente e já não me alcanço.
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25 setembro 2012

quem se astreve?

Eduardo Viveiros de Castro:
“Outros valores, além do frenesi de consumo”

Entrevista a Júlia Magalhães (Em racismoambiental.net.br)

Qual é sua percepção sobre a participação política do brasileiro?

Preferiria começar por uma desgeneralização: vejo a sociedade brasileira como profundamente dividida no que concerne à sua visão do país e do futuro. A ideia de que existe um Brasil, no sentido não-trivial das ideias de unidade e de brasilidade, parece-me uma ilusão politicamente conveniente (sobretudo para os dominantes) mas antropologicamente equivocada. Existem no mínimo dois, e, a meu ver, bem mais Brasis. O conceito geopolítico de Estado-nação unificado não é descritivo, mas prescritivo. Há fraturas profunda na sociedade brasileira. Há setores da população com uma vocação conservadora imensa; eles não integram necessariamente uma classe específica, embora as chamadas “classes médias”, ascendentes ou descendentes, estejam bem representadas ali. Grande parte da chamada sociedade brasileira — a maioria, infelizmente, temo — se sentiria muito satisfeita sob um regime autoritário, sobretudo se conduzido mediaticamente pela autoridade paternal de uma personalidade forte. Mas isso é uma daquelas coisas que a minoria libertária que existe no país, ou mesmo uma certa medioria “progressista”, prefere manter envolta em um silêncio embaraçado. Repete-se a todo e a qualquer propósito que o povo brasileiro é democrático, “cordial”, amante da liberdade, da igualdade e da fraternidade – o que me parece uma ilusão muito perigosa. É assim que vejo a “participação política do povo brasileiro”: fraturada, dividida, polarizada, uma polarização que não está necessariamente em harmonia com as divisões politicas oficiais (partidos etc.). O Brasil permanece uma sociedade visceralmente escravocrata, renitentemente racista, e moralmente covarde. Enquanto não acertarmos contas com esse inconsciente, não iremos “para a frente”. Em outros momentos, é claro, soluços insurreicionais esporádicos, e uma certa indiferença pragmática em relação aos poderes constituídos, que se testemunha sobretudo entre os mais pobres, ou os mais alheios ao teatro montado pelo andar de cima, inspiram modestas utopias e moderados otimismos por parte daqueles que a historia colocou na confortável posição de “pensar o Brasil”. Nós, em suma.

O que é preciso para mudar isso?

Falar, resistir, insistir, olhar por cima do imediato – e, evidentemente, educar. Mas não “educar o povo”, como se a elite fosse muito educada e devêssemos (e pudéssemos) trazer o povo para um nível superior; mas sim criar as condições para que o povo se eduque e acabe educando a elite, quem sabe até livrando-se dela. A paisagem educacional do Brasil de hoje é a de uma terra devastada, um deserto. E não vejo nenhuma iniciativa consistente para tentar cultivar esse deserto. Pelo contrário: chego a ter pesadelos conspiratórios de que não interessa ao projeto de poder em curso modificar realmente a paisagem educacional do Brasil: domesticar a força de trabalho, se é que é isso mesmo que se está sinceramente tentando (ou planejando), não é de forma alguma a mesma coisa que educar.

Isto é só um pesadelo, decerto: não é assim, não pode ser assim, espero que não seja assim. Mas fato é que não se vê uma iniciativa de modificar a situação. Vê-se é a inauguração bombástica de dezenas de universidades sem a mínima infra-estrutura física (para não falar de boas bibliotecas, luxo quase impensável no Brasil), enquanto o ensino fundamental e médio permanecem grotescamente inadequados, com seus professores recebendo uma miséria, com as greves de docentes universitários reprimidas como se eles fossem bandidos. A “falta” de instrução — que é uma forma muito particular e perversa de instrução imposta de cima para baixo — é talvez o principal fator responsável pelo conservadorismo reacionário de boa parte da sociedade brasileira. Em suma, é urgente uma reforma radical na educação brasileira.

“A floresta e a escola”, sonhava Oswald de Andrade. Infelizmente, parece que deixaremos de ter uma e ainda não teremos a outra. Pois sem escola, aí é que não sobrará floresta mesmo.

Por onde começaria a reforma na educação?

Começaria por baixo, é lógico, no ensino fundamental – que continua entregue às moscas. O ensino público teria de ter uma política unificada, voltada para uma – com perdão da expressão – “revolução cultural”. Não adianta redistribuir renda (ou melhor, aumentar a quantidade de migalhas que caem da mesa cada vez mais farta dos ricos) apenas para comprar televisão e ficar vendo o BBB e porcarias do mesmo quilate, se não redistribuímos cultura, educação, ciência e sabedoria; se não damos ao povo condições de criar cultura em lugar de apenas consumir aquela produzida “para” ele. Está havendo uma melhora do nível de vida dos mais pobres, e talvez também da velha classe média – melhora que vai durar o tempo que a China continuar comprando do Brasil e não tiver acabado de comprar a África. Apesar dessa melhora no chamado nível de vida, não vejo melhora na qualidade efetiva de vida, da vida cultural ou espiritual, se me permitem a palavra arcaica. Ao contrário. Mas será que é preciso mesmo destruir as forças vivas, naturais e culturais, do povo, ou melhor, dos povos brasileiros para construir uma sociedade economicamente mais justa? Duvido.

Nesse cenário, quais os temas capazes de mobilizar a sociedade brasileira, hoje?

Vejo a “sociedade brasileira” imantada, pelo menos no plano de sua auto-representação normativa por via da midia, por um ufanismo oco, um orgulho besta, como se o mundo (desta vez, enfim) se curvasse ao Brasil. Copa, Olimpíadas… Não vejo mobilização sobre temas urgentíssimos, como esses da educação e da redefinição de nossa relação com a terra, isto é, com aquilo que está por baixo do território. Natureza e Cultura, em suma, que hoje não apenas se acham mediadas, mediatizadas pelo Mercado, mas mediocrizadas por ele. O Estado se aliou ao Mercado, contra a Natureza e contra a Cultura.

Esses temas ainda não mobilizam?

Existe alguma preocupação da opinião pública com a questão ambiental, um pouco maior do que com a educacional – o que não deixa de ser para se lamentar, pois as duas vão juntas. Mas tudo me parece “too little, too late”: muito pouco, e muito tarde. Está demorando tempo demais para se espalhar a consciência ambiental, o sentido de urgência absoluta que a situação do planeta impõe a todos nós. Essa inércia se traduz em pouca pressão sobre os governos, as corporações, as empresas – estas investindo cada vez mais na historia da carochinha do “capitalismo verde”. E pouca pressão sobre a grande imprensa, suspeitamente lacônica, distraída e incompetente quando se trata da questão das mudanças climáticas.

Não se vê a sociedade realmente mobilizada, por exemplo, por Belo Monte, uma monstruosidade provada e comprovada, mas que tem o apoio desinformado (é o que se infere) de porções significativas da população do Sul e Sudeste, para onde irá boa parte da energia que não for vendida a preço de banana paras as multinacionais do alumínio fazerem latinha de sakê, no baixo Amazonas, para o mercado asiático. Faz falta um discurso politico mais agressivo em relação à questão ambiental. É preciso sobretudo falar aos povos, chamar a atenção de que saneamento básico é um problema ambiental, dengue é problema ambiental, lixão é problema ambiental. Não é possível separar desmatamento de dengue e de saneamento básico. É preciso convencer a população mais pobre de que melhorar as condições ambientais é garantir as condições de existência das pessoas. Mas a esquerda tradicional, como se está comprovando, mostra-se completamente despreparada para articular um discurso sobre a questão ambiental. Quando suas cabeças mais pensantes falam, tem-se a sensação de que estão apenas “correndo atrás”, tentando desajeitadamente capturar e reduzir ao já-conhecido um tema novo, um problema muito real que não estava em seu DNA ideológico e filosófico. Isso quando ela, a esquerda, não se alinha com o insustentável projeto ecocida do capitalismo, revelando assim sua comum origem com este último, lá nas brumas e trevas da metafísica antropocêntrica do Cristianismo.

Enquanto acharmos que melhorar a vida das pessoas é dar-lhes mais dinheiro para comprarem uma televisão, em vez de melhorar o saneamento, o abastecimento de água, a saúde e a educação fundamental, não vai dar. Você ouve o governo falando que a solução é consumir mais, mas não vê qualquer ênfase nesses aspectos literalmente fundamentais da vida humana nas condições dominantes no presente século.

Não se diga, por suposto, que os mais favorecidos pensem melhor e vejam mais longe que os mais pobres. Nada mais idiota do que esses Land Rovers que a gente vê a torto e a direito em São Paulo ou no Rio, rodando com plásticos do Greenpeace e slogans “ecológicos” colados nos pára-brisas. Gente refestelada nessas banheiras 4×4 que atravancam as ruas e bebem o venenoso óleo diesel, gente que acha que “contato com a natureza” é fazer rally no Pantanal…

É uma situação difícil: falta instrução básica, falta compromisso da midia, falta agressividade política no tratar da questão do ambiente — isso quando se acha que há uma questão ambiental, o que está longe de ser o caso de nossos atuais Responsáveis. Estes mostram, ao contrário e por exemplo, preocupação em formar jovens que dirijam com segurança, e assim ao mesmo tempo mantêm sua aposta firme no futuro do transporte por carro individual numa cidade como São Paulo, em que não cabe nem mais uma agulha. Um governo que não se cansa de arrotar grandeza sobre a quantidade de veiculos produzidos por ano. É um absurdo utilizar os números da produção de veiculos como indicador de prosperidade econômica. Isso é uma proposta podre, uma visão tacanha, um projeto burro de país.

Você está dizendo que muitos apelos ao consumo vêm do próprio governo. Mas também há um apelo muito grande que vem do mercado. Como você avalia isso?

O Brasil é um país capitalista periférico. O capitalismo industrial-financeiro é considerado por quase todo mundo hoje como uma evidência necessária, o modo incontornável de um sistema social sobreviver no mundo de hoje. Entendo, ao contrário de alguns companheiros de viagem, que o capitalismo sustentável é uma contradição em termos, e que se nossa presente forma de vida econômica é realmente necessária, então logo nossa forma de vida biológica, isto é, a espécie humana, vai-se mostrar desnecessária. A Terra vai favorecer outras alternativas.

A ideia de crescimento negativo, ou de objeção ao crescimento, a ética da suficiência são contraditórias com a lógica do capital. O capitalismo depende do crescimento contínuo. A ideia manutenção de um determinado patamar de equilíbrio na relação de troca energética com a natureza não cabe na matriz econômica do capitalismo.

Esse impasse, queiramos ou não, vai ser “solucionado” pelas condições termodinâmicas do planeta em um período muito mais curto do que imaginávamos. As pessoas fingem não saber o que está acontecendo, preferem não pensar no assunto, mas o fato é que temos que nos preparar para o pior. E o Brasil, ao contrário, está sempre se preparando para o melhor. O otimismo nacional diante de uma situação planetária para lá de inquietante é extremamente perigoso, e a aposta de que vamos nos dar bem dentro do capitalismo é algo ingênua, se é que não é, quem sabe, desesperada.. O Brasil continua sendo um país periférico, uma plantation relativamente high tech que abastece de produtos primários o capitalismo central. Vivemos de exportar nossa terra e nossa água em forma de soja, açúcar, carne, para os países industrializados – e são eles que dão as cartas, controlam o mercado. Estamos bem nesse momento, mas de forma alguma em posição de controlar a economia mundial. Se mudar um pouco para um lado ou para o outro, o Brasil pode simplesmente perder esse lugar à janela onde está sentado hoje. Sem falar, é claro, no fato de que estamos vivendo uma crise econômica mundial que se tornou explosiva em 2008 e está longe de acabar; ninguém sabe onde ela vai parar. O Brasil, nesse momento da crise, está em uma espécie de contrafluxo do tsunami, mas quando a onda quebrar vai molhar muita gente. Essas coisas têm de ser ditas.

E como você avalia a relação dessa realidade macropolítica, macroeconômica, com as realidades do Brasil rural, dos ribeirinhos, dos indígenas?

O projeto de Brasil que tem a presente coalizão governamental sob o comando do PT é um no qual ribeirinhos, índios, camponeses, quilombolas são vistos como gente atrasada, retardados socioculturais que devem ser conduzidos para um outro estágio. Isso é uma concepção tragicamente equivocada. O PT é visceralmente paulista, seu projeto é uma “paulistanização” do Brasil. Transformar o interior do país numa fantasia country: muita festa do peão boiadeiro, muito carro de tração nas quatro, muita música sertaneja, bota, chapéu, rodeio, boi, eucalipto, gaúcho. E do outro lado cidades gigantescas e impossíveis como São Paulo. O PT vê a Amazônia brasileira como um lugar a se civilizar, a se domesticar, a se rentabilizar, a se capitalizar. Esse é o velho bandeirantismo que tomou conta de vez do projeto nacional, em uma continuidade lamentável entre as geopolítica da ditadura e a do governo atual. Mudaram as condições políticas formais, mas a imagem do que é uma civilização brasileira, do que é uma vida que valha a pena ser vivida, do que é uma sociedade que esteja em sintonia consigo mesma, é muito, muito parecida. Estamos vendo hoje, numa ironia bem dialética, o governo comandado por uma pessoa perseguida e torturada pela ditadura realizando um projeto de sociedade encampado e implementado por essa mesma ditadura: destruição da Amazônia, mecanização, transgenização e agrotoxificação da “lavoura”, migração induzida para as cidades. Por trás de tudo, uma certa ideia de Brasil que o vê, no início do século XXI, como se ele devesse ser o que os Estados Unidos foram no século XX. A imagem que o Brasil tem de si mesmo é, sob vários aspectos, aquela projetada pelos Estados Unidos nos filmes de Hollywood dos anos 50 – muito carro, muita autoestrada, muita geladeira, muita televisão, todo mundo feliz. Quem pagava por tudo isso éramos, entre outros, nós. (Quem nos pagará, agora? A África, mais uma vez? O Haiti? A Bolivia?). Isso sem falarmos na massa de infelicidade bruta gerada por esse modo de vida para seus beneficiários mesmo.

É isso que vejo, uma tristeza: cinco séculos de abominação continuam aí. Sarney é um capitão hereditário, como os que vieram de Portugal para saquear e devastar a terra dos índios. O nosso governo dito de esquerda governa com a permissão da oligarquia e dos jagunços destas para governar, ou seja, pode fazer várias coisas desde que a parte do leão continue com ela. Toda vez que o governo ensaia alguma medida que ameace isso,o congresso, eleito sabe-se como, breca, a imprensa derruba, o PMDB sabota.

Há uma série de impasses para os quais não vejo saída, não vejo como sair por dentro do jogo político tradicional, com as presentes regras – vejo mais como sendo possível pelo lado do movimento social. Este está desmobilizado; se não está, o que mais se ouve é que ele está. Mas se não for por via do movimento social, vamos continuar vivendo nesse paraíso subjuntivo, aquele em que um dia tudo vai ficar ótimo. O Brasil é um país dominado politicamente por grandes proprietários e grandes empreiteiros, que não só nunca fez sua reforma agrária, como onde se diz que já não é mais preciso fazê-la.

Você acha que as coisas vão começar a mudar quando chegarem a um limite?

A crise econômica mundial vai provavelmente pegar o Brasil no contrapé em algum momento próximo. Mas o que vai acontecer com certeza é que o mundo todo vai passar por uma transição ecológica, climática e demográfica muito intensa nos próximos 50 anos, com epidemias, fomes, secas, desastres, guerras, invasões. Estamos vendo as condições climáticas mudarem muito mais aceleradamente do que imaginávamos, e é grande a possibilidade de catástrofes, de quebras de safras, de crises de alimentos. Por ora, hoje, isso está até beneficiando o Brasil. Mas um dia a conta vai chegar. Os climatologistas, os geofísicos, os biólogos e os ecólogos estão profundamente pessimistas quanto ao ritmo, as causas e as consequências da transformação das condições ambientais em que se desenvolve hoje a vida da espécie. Porque haveria eu de estar otimista?

Penso que é preciso insistir que é possível ser feliz sem se deixar hipnotizar por esse frenesi de consumo que a mídia nos impõe. Não sou contra o crescimento econômico no Brasil, não sou idiota a ponto de achar que tudo se resolveria distribuindo a grana do Eike Batista entre os camponeses do semi-árido nordestino ou cortando os subsídios aos clãs político-mafiosos que governam o país. Não que isso não fosse uma boa ideia. Mas sou contra, isso sim, o crescimento da “economia” mundial, e sou a favor de uma redistribuição das taxas de crescimento. Sou também obviamente a favor de que todos possam comprar uma geladeira, e, por que não, uma televisão — mas sou a favor de que isso envolva a máxima implementação das tecnologias solar e eólica. E teria imenso prazer em parar de andar de carro se pudéssemos trocar esse meio absurdo de transporte por soluções mais inteligentes.

E como você vê o jovem nesse contexto?

É muito difícil falar de uma geração à qual não se pertence. Na década de 60 tínhamos ideias confusas mas ideais claros, achávamos que podíamos mudar o mundo, e sabíamos que tipo de mundo queríamos. Acho que, no geral, os horizontes utópicos se retraíram enormemente.

Algum movimento recente no Brasil ou no mundo chamou sua atenção?

No Brasil, a aceleração da difusão do que podemos chamar de cultura agro-sulista, tanto à direita como à esquerda, pelo interior do país. Vejo isso como a consumação do projeto de branqueamento da nacionalidade, esse modo muito peculiar da elite dominante acertar suas contas com o próprio passado (passado?) escravista.

Outra mudança importante foi a consolidação de uma cultura popular ligada ao movimento evangélico. O evangelismo das igrejas universais do reino de Deus e congêneres está evidentemente associado à religião do consumo, aliás.

E como você vê o surgimento das redes sociais, nesse contexto?

Isso é uma das poucas coisas com que estou bastante otimista: o relativo e progressivo enfraquecimento do controle total das mídias por cinco ou seis grandes grupos. Esse enfraquecimento está acontecendo com a proliferação das redes sociais, que são a grande novidade na sociedade brasileira e que estão contribuindo para fazer circular um tipo de informação que não tinha trânsito na imprensa oficial, e permitindo formas de mobilização antes impossíveis. Há movimentos inteiramente produzidos dentro das redes sociais, como a marcha contra a homofobia, o churrasco da “gente diferenciada” em Higienópolis, os vários movimentos contra Belo Monte, a mobilização pelas florestas. As redes são nossa saída de emergência para a aliança mortal entre governo e mídia. São um fator de desestabilização, no melhor sentido da palavra, do arranjo de poder dominante. Se alguma grande mudança no cenário político brasileiro vier a acontecer, creio que vai passar por essa mobilização das redes.

Por isso se intensificam as tentativas de controlar essas redes por parte dos poderes constituídos – isso no mundo inteiro. Pelo controle ao acesso ou por instrumentos vergonhosos, como o “projeto” brasileiro de banda larga, que começa pelo reconhecimento de que o serviço será de baixa qualidade. Uma decisão tecnolotica e política antidemocrática e antipopular, equivalente ao que se faz com a educação: impedir que a população tenha acesso pleno à circulação cultural. Parece mesmo, às vezes, que há uma conspiração para impedir que os brasileiros tenham uma educação boa e acesso de qualidade à internet. Essas coisas vão juntas e têm o mesmo efeito, que é o aumento da inteligência social, algo que, pelo jeito, é preciso controlar com muito cuidado.

Você imagina um novo modelo político?

Um amigo que trabalhava no ministério do Meio Ambiente na época de Marina Silva me criticava dizendo que essa minha conversa de ficar longe do Estado era romântica e absurda, que tínhamos que tomar o poder, sim. Eu respondia que, se tínhamos de tomar o poder, era preciso saber manter o poder depois, e era aí que a coisa pegava. Não tenho um desenho político para o Brasil, não tenho a pretensão de saber o que é melhor para o povo brasileiro em geral e como um todo. Só posso externar minhas preocupações e indignações, e palpitar, de verdade, apenas ali onde me sinto seguro.

Penso, de qualquer forma, que se deve insistir na ideia de que o Brasil tem – ou, a essa altura, teria – as condições ecológicas, geográficas, culturais de desenvolver um novo estilo de civilização, um que não seja uma cópia empobrecida do modelo americano e norte-europeu. Poderíamos começar a experimentar, timidamente que fosse, algum tipo de alternativa aos paradigmas tecno-econômicos desenvolvidos na Europa moderna. Mas imagino que, se algum país vai acabar fazendo isso no mundo, será a China. Verdade que os chineses têm 5000 anos de historia cultural praticamente continua, e o que nós temos a oferecer são apenas 500 anos de dominação europeia e uma triste historia de etnocídio, deliberado ou não. Mesmo assim, é indesculpável a falta de inventividade da sociedade brasileira, pelo menos das suas elite políticas e intelectuais, que perderam várias ocasiões de se inspirarem nas soluções socioculturais que os povos brasileiros historicamente ofereceram, e de assim articular as condições de uma civilização brasileira minimamente diferente dos comerciais de TV. Temos de mudar completamente, para começar, a relação secularmente predatória da sociedade nacional com a natureza, com a base físico-biológica da própria nacionalidade. E está na hora de iniciarmos uma relação nova com o consumo, menos ansiosa e mais realista diante da situação de crise atual. A felicidade tem muitos caminhos.

http://www.outraspalavras.net/2012/09/20/outros-valores-alem-do-frenesi-de-consumo/.

12 julho 2012

eternos retornos

Vito Letizia, o Gilberto


Revista "'Epoca", 10/07/2012
Paulo Moreira Leite

Conheci Vito Letizia em 1975, num corredor da Faculdade de Ciências Sociais da USP. Na época ele se chamava Gilberto, vivia clandestinamente no país. A faculdade funcionava em barracos improvisados, com paredes de cimento e telhado de amianto. Eram frios no inverno e insuportavelmente quentes no verão.
Não fosse pelos olhos esbugalhados, que lhe davam uma cerca semelhança com o ator ingles Marty Feldman, que fez grande sucesso na comédia de terror “Jovem Frankestein,” Gilberto parecia a ter nascido para entrar e sair de qualquer ambiente sem ser notado. Tinha o cabelo curto, o corpo magérrimo, a pisada leve. Eu mal sabia quem ele era mas sabia o que estava fazendo ali.

Morto no fim de semana, depois de uma longa luta contra um câncer, Gilberto foi um dos principais dirigentes da Organização Socialista Internacionalista, OSI, um pequeno partido trotskista que fez um trabalho importante na luta contra a ditadura, entre bancários, professores e servidores públicos, mas ficou conhecido pela criação da Liberdade e Luta, a Libelu estudantil.

Como o próprio Gilberto iria recordar anos depois de deixar a organização, a Libelu foi uma espécie de lenda política daquele anos. Trinta anos depois daquelas reuniões clandestinas, algumas dezenas de militantes que Gilberto orientava e ajudou a formar, que costumavam ouví-lo de modo atencioso e até reverente, como mestre admirado e também temido, pelo tom enérgico de suas intervenções, fariam parte do governo Luiz Inácio Lula da Silva, ocupando postos no ministério e na assessoria direta do presidente.

Na segunda metade da década de 70, a OSI chegou a reunir mais de 1 000 militantes em células estruturadas, que faziam reuniões semanais e debatiam documentos internos. A atividade mais importante dos militantes era discutir, em toda reunião, as notas de conjuntura que o próprio Gilberto redigia, sintetizando os debates de um pequeno grupo de dirigentes da organização.

A Libelu tinha uma fama anárquica mas a OSI era uma estrutura dirigida e centralizada, orgulhosa de fazer o possível para seguir os métodos do Partido Bolchevique fundado por Lenin. Os militantes faziam reuniões todas as semanas, defendiam a linha política de forma disciplinada e pagavam uma contribuição financeira proporcional aos rendimentos de cada um. Todos os anos ocorriam Congressos – mesmo na clandestinidade – onde militantes eleitos escolhiam a direção da organização.

Gilberto deixou de ser um militante profissional muitos anos atrás. Saiu da OSI com os mesmos passos discretos e movimentos quase invisíveis. Preparando-se para a nova vida, prestou concurso de escriturário da Caixa Econômica e foi aprovado. Contava que gostava do serviço. Pouco depois de começar a trabalhar numa mesa onde atendia mutuários que compravam casa própria “eu disse tchau” para a OSI, como me contou em setembro de 2011, sentado numa doceira Holandesa na Vila Buarque, em São Paulo, onde dividimos muitas xícaras de café e suco durante uma hora e meia, na única conversa prolongada desde que nos encontramos pela primeira vez, em 1975.

Vito Letizia mudaria de trabalho duas vezes. Tornou-se professor numa escola pública da Zona Leste, com a esperança de manter uma atividade junto ao sindicato de professores. Detestou a experiência. Com o bom conhecimento acumulado pela leitura de obras clássicas do marxismo, conseguiu ser considerado – e aprovado – para uma vaga de professor da cadeira Marx 2 na PUC de São Paulo.

Num passado um pouco mais distante, ainda em Porto Alegre, sua cidade natal, Vito Letizia já era o principal dirigente, ou “doutrinador”, como constaria de sua ficha policial, de um grupo chamado Fração Bolchevique Trotskista. Preso por “atividade subversiva,” ficou três anos na cadeia, sem julgamento. Passou um ano e oito meses numa solitária, sem luz. Conseguia ler romances policiais – à luz de velas. Quando sentou-se no banco dos réus, recebeu uma pena de apenas dois anos. Não recebeu indenização nem pedido de desculpas pelo tempo que lhe furtaram.

Formado em Ciências Naturais, cadeira que antecedeu a biologia de nossos dias, Vito Letizia sempre foi um homem de longas leituras. Era capaz de ler em cinco línguas. Seu gosto por mapas fez dele um estudioso aplicado de geografia. A professora Miroslava Lima, que tinha 19 anos quando encontrou Vito Letizia pela primeira vez, em Paris, conta que decidiu estudar Geografia por influencia dele. Também recorda que, para divertir-se, Vito Letizia era capaz de fazer desafios como lhe pedir para declamar de cabeça os rios da Russia.

Na PUC de São Paulo, Vito voltou a exercitar ao menos em parte os velhos hábitos políticos, montando um grupo de estudos que reunia alunos e professores interessados em discutir a obra de Karl Marx nas tardes de sábado. Quando parou de lecionar, retornou a Porto Alegre, onde tinha um apartamento.

Mesmo distante de todas aquelas pessoas que fizeram parte da OSI, Vito Letizia mostrava um genuíno orgulho na voz ao falar de algumas delas, como Antonio Palocci, que foi ministro da Fazenda do primeiro mandato do governo Lula e também teve um papel importante nos primeiros meses do governo Dilma.
“O Palocci tinha uma liderança popular, que lhe permitiu tornar-se prefeito de uma cidade importante como Ribeirão Preto.” Após uma pausa, ele acrescentou : “Palocci seria o sucessor do Lula e seria o presidente da República. Se não fosse em 2006, teria sido agora, em 2010.” Referindo-se à denuncia do caseiro Francenildo contra Palocci, Vito se dizia convencido de que fizeram uma “armação contra ele. ”

Aos 74 anos, longe do PT, com uma rápida e pouco comemorada passagem pelo PSOL, Letizia seguia sendo, acima de tudo, um sujeito disciplinado. Recluso, estudioso, parecia possuir uma couraça de alta resistência que protege as próprias convicções. A OSI e a Libelu eram conhecidas por sua inflexibilidade política. Orgulhavam-se de ficar longe daquilo que, na época, com toda simplicidade, chamavam de “pressões da burguesia.” Isso incluía, por exemplo, fazer campanha pelo voto nulo até o momento em que os trabalhadores formaram seu partido, o PT.

Nos anos iniciais, quando se produziu o DNA da organização, o papel de Vito Letizia era único. Não era o mais brilhante e talvez não fosse o mais rápido para perceber mudanças nas nuvens da política. Mas era mais experiente, mais estudado, aquele que tinha mais clareza em questões de princípio. Dizia que a adesão a organização não era um compromisso ideológico, a ideias e opiniões. Era um compromisso com uma classe social.

Letizia também era a ligação da organização com um centro trotskista de Paris, comandado por Pierre Lambert, veterano militante da IV Internacional ainda nos tempos da Segunda Guerra Mundial. A parte mais conhecida de sua militância, que durou pouco mais de uma década, começou e terminou em Paris, em torno da organização de Pierre Lambert. Letizia foi para a capital francesa logo depois de sair da prisão, em 1973.

Conversando naquela confeitaria da Maria Antonia, ele me disse que foi atraído pela presença de quadros que atuavam sob liderança de Lambert em função de sua boa formação teorica, como o historiador Pierre Broué, autor de uma alentada biografia de Leon Trotski, além de outros intelectuais menos conhecidas mas importante em seu meio, como Jean-Jaques Marie e Gerard Bloch.

No início dos anos 80, enfrentando um certo desgaste interno na organização brasileira, Vito Letizia retornou a Paris. Ali, também ocorriam mudanças e conflitos em torno da linha política. “Naquela época se falava que era preciso dar espaço aos jovens ” lembra, numa entonação de quem só podia sentir-se naturalmente atingido por essas colocações, embora ainda não tivesse chegado aos 50 anos. “Muitas pessoas só estavam preocupadas em fazer carreira na política francesa, de qualquer maneira.” Letizia admite que já estava desgostoso e desanimado quando voltou ao Brasil.

Deixou a OSI pouco depois. Não tentou promover um racha nem criou uma dissidência. Simplesmente foi embora, como a pessoa que abandona uma atividade que se tornou penosa. Dirigentes da organização contam que chegaram a procurá-lo em casa, duas vezes. Letizia não abriu a porta.

Muitos anos depois, quando perguntei por divergências políticas daquele tempo, descobri que a passagem dos anos fez surgir diferenças profundas entre o Vito Letizia dos congressos da OSI, onde sempre foi uma das presenças mais importantes, e aquele cidadão que tomava um copo de suco sentado à minha frente. Letizia segue um advogado da revolução e um crítico do capitalismo. Numa palestra para um grupo de 40 antigos militantes, dias antes, ele disse: “Não queremos apenas empregos, não queremos trabalho penoso. Queremos atividade vital como seres humanos, e isso o capitalismo não pode nos dar.”

Minha lembrança de Gilberto era daquele dirigente duro, e muito inflexível, que chegava a atemorizar o interlocutor quando demonstrava irritação. Parecia perder a paciência quando só queria enfatizar uma ideia. Era um homem de exibir certezas, até porque não se conhece dirigente capaz de organizar jovens combativos em nome de suas muitas dúvidas. Ultimamente ele se definia como 90% marxista e 10% taoista, pensamento que já estudava no tempo da militancia, e que é uma das formas mais libertárias da cultura oriental que se conhece. Seu principal conselho ao jovens é “estudar para parar de ter as mesmas idéias falsas de antes”.

Vito Letizia era capaz de reconhecer muitos méritos nos principais personagens da revolução socialista. Mas, sem arrogância na voz, sem aquele ar pedante de tantos antigos ex-militantes que se tornaram sabidos de repente, define-se como crítico de todos eles. Como é tão comum nas pessoas que tiveram seu papel na luta contra a ditadura, a crítica envolve a visão anterior de democracia.

Em Lenin, Letizia condenava o conceito de vanguarda operária, a teoria de que uma revolução deve ser produzida de fora para dentro, a partir de um partido revolucionário, organizado e estruturado. Sua opção, agora, é bem diferente. “Não vamos apontar os obstáculos, o movimento vai apontar. Não vamos nos preocupar em atrair o movimento para nosso lado. Vamos deixar que ele nos atraia.”

Ele também tornou-se um critico de Leon Trotski, referência de todas as organizações onde atuou. Para o Vito Letizia dos últimos anos, Trotski jamais teve uma compreensão real de que uma sociedade precisa funcionar de modo democrático. Referindo-se a momentos decisivos do confronto contra Stalin e a ditadura stalinista, recorda que Trotski poderia até ter razão no que dizia “mas não entendia que era necessário lutar pela democratização de toda sociedade e não apenas dentro do partido.” Ele também admite que Trotski estava errado no massacre de Kronstadt, episódio da revolução russa que representou a ruptura dos bolcheviques e os anarquistas. Lembrando uma conhecida expressão de Trotski, ele diz que em função de Kronstadt ele não deveria ter dito, no fim da vida, que a “IV Internacional era uma bandeira sem manchas. Tinha manchas sim.”
Perguntei pelo Brasil. Ele não se conformava com o destino da Libelu. “Não entendi por que dissolveram a Libelu. Era um movimento importante. Tinha expressão social. Até o Caetano Veloso falava dela,” argumenta, sorrindo, o que faz raras vezes. Quando é perguntado sobre o papel da OSI, o olhar reage com menos empolgação. Ele considera que a atuação da OSI estava condicionada pelos mesmos limites da atuação do trotskismo em geral.

A vida de Vito Letizia passou por novas mudanças a partir de abril de 2010, quando ele descobriu um câncer no pâncreas. Tratou-se em Porto Alegre e, após várias sessões de quimioterapia, veio a São Paulo para reencontrar amigos que não via há muito tempo. Em São Paulo sua presença estimulou um reencontro de veteranos libelus. Ele fez uma palestra para o lançamento de um site, Interludium, onde eles procuram manter-se em contato. O site é aberto para contribuições variadas mas, nos primeiros meses, a maioria dos textos eram de autoria do próprio Vito Letizia.

Durante a palestra, numa pequena sala da Apropuc (Associação de Professores da PUC), Vito Letizia teve direito a um silêncio admirado e respeitoso, como só acontecia nos tempos em que, dentro da OSI, seu prestigio se encontrava no ponto máximo.

Compreensivelmente, a militância política dos anos da ditadura costuma produzir emoções peculiares na maioria das pessoas. Elas tem uma relação de afeto e especialmente de gratidão em relação aos dirigentes que, pelo exemplo, pela orientação e muitas vezes só pela presença naquelas horas, foram capazesa de ajuda-las a fazer parte de uma história que hoje é motivo de orgulho.
Cristina, antiga militante da OSI que hoje mora numa fazenda no interior da Bahia, conseguiu assistir à palestra de Vito Letizia pelo site. Descobriu, emocionada, que ele mantinha o discurso pausado, de quem fala com calma e com clareza, criando silêncios demorados, com se tentasse facilitar o trabalho de quem pretendia acompanhar a evolução de seu raciocínio. Também ficou feliz de rever aqueles olhos saltados. “Putz, quando percebi estava chorando, lembrando o quanto já viajei naquelas pausas eloquentes do Vito, naquele olhar de tartaruga centenária e nas suas palavras universais, raizes do futuro/uro/uro…”, escreveu Cristina, num email envidado a uma amiga.

05 julho 2012

Caminante

Faz tempos procuro a chave que abre todas as portas. O que é trancado será remexido. A luz sobre tudo queima a matéria, imprime o selo solar.

Nas vareda tenho visto: coisa boa, coisa à toa, os bocados. Quando chegam ao cansaço do repetido, uns se amofinam resmungantes, outros se apartam.

Agora nesse ente, o mundo espera.

Passo
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25 junho 2012

Luzes

Queimou a fogueira, eu ainda ardo. O vento ameniza os dias, a vida segue, seja pra onde.

Tudo indica que passou o tempo de governanças e militâncias, agora é vizinhar –como se faz nos altos rios- com próximos e distantes. Chega de reunião, bom mesmo é conversar. Política zero.

As palavras simples que os antigos cantam e o mundo já esquece: firmeza, humildade, atenção, respeito, alegria, fé e amor.

O céu de junho.