18 Dezembro 2009

No clima

Este corpo não foi a Copenhague, esta mente ainda não voltou de lá. Passei os últimos dias procurando notícias. Marina ganhou todas. Lula, que antecipou sua chegada à reunião antes que a desinformada e arrogante Dilma botasse tudo a perder, acabou assumindo propostas que antes recusava na tentativa de evitar o naufrágio do navio em que viaja com os "líderes" do mundo. Foi engraçado ver, hoje pela manhã, o artigo do Zé Dirceu criticando a proposta de Marina (da contribuição brasileira ao fundo mundial do clima) no exato momento em que Lula discursava na Conferência desse aceitando o "sacrifício" e recitava o mea culpa: isso acontece porque não cuidamos antes. Digo que foi engraçado mas, francamente, nem dá pra rir.
Estive em Brasília em outubro e fiquei surpreso ao notar que Marina, embora falasse da importância da Conferência de Copenhague, não parecia estar ansiosa com os resultados. Perguntei a respeito e ela deu a entender que o resultado real era a mobilização e o esclarecimento da população e que isso já estava ocorrendo, independente das posições oficiais dos governos. Hoje entendi isso com mais clareza ao ler o artigo de Saleemul Huq, que publico agora, no momento em que Obama, Lula e outros "líderes" iniciam mais uma reunião de emergência para tentar chegar, nos últimos momentos da Conferência, a um acordo que não salve o mundo mas ao menos as aparências.

O dia que tudo mudou em Copenhague
Por Saleemul Huq*
Copenhague, 18 de dezembro (Terramérica).- Trabalhei em temas de mudança climática por muitos anos, primeiro como pesquisador em minha Bangladesh natal e depois no Instituto Internacional para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, e como membro do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudança Climática. Vi com meus próprios olhos as ameaças que representam a mudança climática nas regiões secas da África, nas montanhas do Himalaia e nos vastos deltas baixos da Ásia. Testemunhei anos de falta de ação nas cúpulas da Organização das Nações Unidas, que não deram a resposta necessária porque os negociadores escolheram proteger estreitos interesses nacionais e econômicos em lugar de assumir o desafio de proteger as gerações futuras.

Discuti com os que negam a mudança climática e têm fortes vínculos com indústrias poluentes, e que nunca estiveram nas aldeias e comunidades vulneráveis, onde a mudança climática já mostra seus impactos. Se o fizessem, notariam o dano que sua ideologia causa nas pessoas que menos contribuíram com esta ameaça mundial. E agora, em dezembro de 2009, em Copenhague, creio que chegamos a um ponto de inflexão. Copenhague será lembrada nos próximos anos. Não pelo que ocorrer hoje, quando os líderes mundiais encerrarem a 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP-15), mas pelo que ocorreu no sábado passado.

Naquele dia, gente dos mais diversos estilos de vida de todo o mundo assumiu a iniciativa que deveria ser ostentada pelos que se dizem nossos líderes. Além das palavras que estes presidentes e primeiros-ministros decidirem incluir em um “protocolo” ou “acordo”, é o povo do mundo que tem de escrever no muro. Os líderes que decidirem ler essas palavras nos farão avançar. Aqueles que as ignorarem serão arrastados pela maré da história. O dia 12 deste mês assinala o momento em que grande parte do mundo se levantou para executar uma mudança verdadeiramente global. Haverá retrocessos (como um acordo medíocre esta semana), mas a maré já se movimentou. E não pode voltar atrás.

Mais além do que conseguirmos em Copenhague – e sou otimista, apesar das manobras políticas – estamos em um caminho novo e inexorável. Os líderes que compreenderem isso podem proceder dos lugares mais inesperados. Vejamos, por exemplo, o presidente Mohammad Nasheed, da diminuta Maldivas.

Em poucos meses voltarei a Bangladesh para combater a mudança climática real, para opor-me às más (ou inadequadas) políticas que a abordam. Minha ambição para os próximos anos é ajudar a população de um dos países mais pobres e vulneráveis – e, entretanto, mais resiliente e inovadora – para que deixe de ser o emblema mundial de vulnerabilidade e passe a ser reconhecido como, talvez, o que melhor se adapta.

Volto à minha pátria para criar um novo Centro Internacional para a Mudança Climática e o Desenvolvimento, no qual aspiramos aprofundar a capacidade de governos, organizações da sociedade civil, pesquisadores, acadêmicos, jornalistas e muitos outros atores das nações em desenvolvimento para responder aos desafios que a mudança climática apresenta. O novo centro oferecerá capacitação sobre como sobreviver (e inclusive prosperar) em um mundo aquecido. Focará principalmente na adaptação à mudança climática nas nações menos adiantadas, mas não se deterá nisso.

Na verdade, planejamos criar instrumentos para que os países industrializados possam enfrentar impactos climáticos adversos. Paradoxalmente, o mundo rico que causou este problema não planejou em detalhe com adaptar-se a ele. Volto à frente de combate à mudança climática, onde a luta real já está em marcha. Vou sabendo que milhões de pessoas de todo o mundo compartilham minhas esperanças e meu otimismo quanto a que a humanidade pode unir-se para enfrentar o desafio que pode determinar nossa vida sobre a Terra.

* Saleemul Huq é membro do Instituto Internacional para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento e autor principal dos informes do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climática (IPCC), ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 2007.

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.
© Copyleft - É livre a reprodução exclusivamente para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída.

02 Dezembro 2009

Uma nota

Ella Fitzgerald mostra o que se pode fazer com uma nota só.

27 Novembro 2009

descaminhos

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O jovem me aborda no terminal rodoviário, entre a chuva e o ônibus, para me perguntar, inicialmente, como vai o PV. Respondo que não tenho intenção de me associar a nenhum partido, apenas vou ajudar Marina Silva no que for possível. Daí passamos a comentar todo tipo de insuficiências do Estado e da chamada sociedade civil diante dos problemas maiores, aqueles grandões, para os quais não há nem mesmo um sonho fugaz de solução.
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Há pouco li um artigo em que fala da obsolescência do Estado. Sim, é verdade, mas não é o único a sofrer desse mal. Há mesmo uma obsolescência do mundo, do pensamento, da civilização, da raça humana. Há uma máquina de non sense ligada e o dia é uma partida de ping-pong entre a ansiedade e a prostração. As pessoas nem sabem por que estão assim chateadas. Qualquer ideologia é tentativa de auto-engano, fuga apressada à depressão, prece balbuciada diante do abismo.
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O que me preocupa é essa estranha mania de me preocupar. Falei ao jovem, antes de entrar no ônibus: o povo se incomoda, se mobiliza e inventa coisas novas, que viram cultura e política. Assim as coisas mudam, Mas depois tudo se acomoda e sobrevém o cansaço. Entramos no refluxo, sem criatividade, insistindo nas mesmas soluções falsas: mais casas, mais polícia, mais petróleo, é assim que estamos agora. Talvez daqui a um tempo apareçam novos caminhos.
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A dificuldade com o Estado é que ele se instala na psique coletiva como uma espécie de Ego, imperativo e inamovível, mediando todas as linguagens ou, pelo menos, tentando estabelecer controle sobre elas. Como o mundo real é muito maior e mais complexo, ficamos sempre com essa sensação de insuficiência: nosso estadinho não dá conta, é areia demais pro seu caminhãozinho. Ficamos, assim, como os governos: caricatos e vulgares no meio de uma propaganda evidentemente enganosa. Fugimos e dissimulamos porque temos vergonha ou, o que é pior, não temos.
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Vi uma proposta de um pessoal em Brasília, chamada Terapia Comunitária. Nem sei bem do que se trata, mas já gostei. Acho que podemos ir recuperando antigas e desenvolvendo novas formas de convivência. É importante que sejam não-institucionais. E que não busquem qualquer objetivo, mas sejam, como se costuma dizer, um fim em si mesmas. Algo assim como as cantigas de roda que as crianças de antigamente costumavam fazer. Por fazer.

13 Novembro 2009

Com o tempo...

Poeta levantava-se todos os dias disposto a desmontar a Máquina do Mundo. Lutava com ela enquanto havia luz, às vezes nem parava para comer -um simples descuido e seria engolido, o que, aliás, aconteceu muitas vezes. À noite costumavam descansar e preparar estratégias para a refrega que continuaria, incansável, no dia seguinte. Digo costumavam porque a Máquina do Mundo empenhava-se na disputa, sabia que poderia ser desmontada definitivamente e resistia. Mais: sem a luta de Poeta, não via sentido em existir, era uma máquina inútil e dispendiosa. Mas ele não sabia que sabia disso, apenas lutava e, nas raríssimas vezes que vencia, voltava para casa triunfante, convidava os amigos e tomava uma taça de vinho para comemorar.
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Com o tempo, foram cansando. Nos dias de luta, param para almoçar -e às vezes o fazem juntos, conversando sobre a vida. Terminam cedo, aos sábados.
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Poeta passa agora muitos dias em casa, cuidando das plantas e escrevendo um livro, um longo e minucioso inventário de estratégias para desmontar a Máquina do Mundo.
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Ela também já não se empenha tanto em manter-se funcionando. Tem dias que fica por aí, totalmente destrambelhada. O mundo, por isso, está cada dia mais cheio de falhas e desastres. Mas em alguns dias surpreendentes é invadido por enormes e súbitas ondas de poesia.

06 Novembro 2009

Umidades

Chuva todo dia, na lua cheia que passou oculta em nuvens. A manga madura caindo, acabou a fome no mundo. Inverno pegando água, a capoeira crescendo, mato verde brilhando em dias úmidos e amenos. Da floresta vem uma cantiga de força. Quem escuta levanta a cabeça, assuntando, achando rumo, e sai para o tempo a lançar chamados. Avia, menino, que é hora. Vambora, menina, cuida. A rede é boa, a vida é mais.
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Vi as fraquezas criadas em estufas, sentadas em plástico, desenhando no vidro, pensando dinheiro, delimitando vazios. Pareciam fortes, as fraquezas, naquele lugar sem chão e sem céu. Pra não morrer, procurei a porta (nem janelas havia).
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A Terra é meu refúgio, minha restauração. Uma noite cheguei e desci para o açude, nu e distraído. Nas margens encontrei manchas escuras que se moviam devagar. Acendi a lanterna para espantar um bando de capivaras -umas fêmeas com filhotes, o macho gritando ameaçador na ponta da barragem. Outra noite tinha um cachorro magro, doente, sem força para latir -soltava um ganido apavorante e rouco- e ninguém sabe de onde vinha. No meio-dia estava dentro dágua, moribundo, só a cabeça de fora. Esperei que morresse e joguei seu corpo no capim distante, junto a umas árvores onde os urubus tomariam chegada. Vida e morte dão respeito ao mundo, pelas duas aprendo.
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Três palmos já subiu o açude des`que a chuva chegou. Continuar assim, vai sangrar na próxima lua cheia e ficar de um verde limpo refletindo as árvores. Vou viajar em minhas campanhas: uma hora subo os rios interiores pra rever os amigos na floresta, outra hora vou às cidades grandes saber de mudanças no planeta. Tenho este pedaço simples e rude para meus retornos, as voltas que um homem tem que dar ao redor de si mesmo.
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Eu não viria aqui se não houvesse Amazônia.
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03 Novembro 2009

Claude Lévi-Strauss (28.11.1908 – 31.10.2009)

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FOLHA - O que o senhor pensa das idéias ecológicas, que se tornaram fortes em todo o mundo e ganharam particular importância em países como o Brasil?
LÉVI-STRAUSS - Sou a favor, e de uma maneira tão extrema que acaba se tornando puramente teórica. O que norteia o pensamento ecológico é que ele proclama a vontade de defender solidariamente a natureza e o homem. Defender a natureza para as necessidades e dentro dos interesses do homem. Estou convencido de que as coisas são profundamente contraditórias. Se tivesse que tomar posições ecológicas, diria que o que me interessa são as plantas e os animais - e danem-se os homens. É óbvio que se trata de uma posição indefensável. Por isso, guardo-a para mim.


FOLHA - O senhor sempre tomou o partido da ciência, mas, na releitura de Montaigne que faz em História de Lince, mostra também suas distâncias em relação a uma fé no conhecimento. O senhor se tornou mais cético em relação à ciência?
LÉVI-STRAUSS - A lição que tirei de Montaigne é que estamos condenados a viver e pensar simultaneamente em vários níveis e que esses níveis são incomensuráveis. Há saltos existenciais para passar de um a outro. O último nível é um ceticismo integral. Mas não se pode viver com ceticismo integral. Seria preciso se suicidar ou se refugiar nas montanhas. Somos obrigados a viver ao mesmo tempo em outros níveis em que esse ceticismo está moderado ou totalmente esquecido. Para fazer ciência, é preciso fazer como se o mundo exterior tivesse uma realidade e como se a razão humana fosse capaz de compreendê-lo. Mas é "como se".


(Trechos de entrevista publicada na Folha de S. Paulo em 3/10/1993)

28 Outubro 2009

Menos mal

CÂMARA APROVA REGIME DE URGÊNCIA PARA REFERENDO SOBRE MUDANÇA DO FUSO HORÁRIO NO ACRE

Projeto de Flaviano Melo (PMDB-AC) foi aprovado por 267 votos a favor e 40 contra. Partido dos Trabalhadores (PT) trabalhou ativamente contra a aprovação.

(Leia no blog Ambiente Acreano, de Evandro Ferreira)

26 Outubro 2009

Pra clarear

Na terça-feira, dia 20, recebi um e-mail do Jairo Carioca, outro irmão de fé que anda pelos caminhos do jornalismo e agora está trabalhando no site Ac24Horas. Tinha lido uma nota na coluna do Leo Rosas informando minha desfiliação do PT e queria fazer uma entrevista. Mandou seis perguntas, que procurei responder rapidamente, de maneira coloquial e sucinta. No dia seguinte viajei para Brasília e quando retornei recebi o recado de que a matéria havia sido publicada no sábado. Resolvi, então, mostrar aqui a íntegra das perguntas e respostas para que possamos depois conversar sobre política. Quero que minhas opiniões fiquem claras e devo aproveitar o bom ânimo que encontrei na viagem para desfazer confusões. Fica aberta, assim, uma temporada de política neste blog, desde que não se perca a poesia, sempre necessária.

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1 - Sua decisão tem algo a ver com a decisão da senadora Marina Silva, hoje no PV?

Tem tudo a ver. Já estou afastado do PT há muito tempo, há vários anos não participo da chamada "vida partidária". Mas não havia necessidade de formalizar minha desfiliação. Agora a situação mudou, porque a Marina provavelmente será candidata a Presidente pelo PV e eu pretendo, é claro, fazer campanha pra ela. Desvincular-me do PT é uma medida prática para evitar constrangimentos políticos ou problemas jurídicos para mim ou para outras pessoas.

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2 - O PV entre outras ideologias, defende a legalização da maconha. O que vc diz sobre o fato de ir para um partido que defenda essa ideologia?

Não creio que seja necessário filiar-me ao PV para participar da campanha da Marina. De todo modo, parece que o PV vai aprovar uma espécie de "cláusula de consciência", pela qual seus filiados não serão obrigados a defender posições contrárias às suas convicções religiosas e éticas.

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3 - O PV também defende o aborto. Vc acredita em mudanças de paradigmas, ou seja, que com as novas adesões, inclusive a de Marina, o partido mude de concepções?

Nenhum partido defende o aborto. Mas vários defendem a sua descriminalização, entre eles o PT e o PV. Creio que a posição desses partidos não vai mudar. Mas a tendência é que essa questão não seja central e obrigatória; portanto, não resultará em problemas para a Marina ou qualquer outro filiado que tenha idéia discordante. Acho que o PV vai exigir consenso em questões básicas relacionadas ao desenvolvimento sustentável, a conservação ambiental, a justiça social etc. Mas isso é apenas uma previsão pessoal, afinal não sou filiado ao PV.

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4 - Você, Marina e Binho fazem parte da fundação do PT no Acre, porque largar tudo depois de tantas lutas e conquistas?

Largar o quê? A gente se filia a um partido pra defender uma causa, não para ficar agarrado ao poder político ou status social. Neste momento, o futuro da humanidade está em questão, as mudanças do clima no planeta encurtam todos os prazos e o mais importante é fazer com que o povo discuta esse assunto e pressione os políticos a tomarem decisões. Todas as lutas e conquistas que tivemos até agora são importantes, mas são pequenas diante da enorme batalha que temos pela frente.

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5 - Até que ponto vc acredita que Marina Silva poderá ser bem sucedida na campanha presidencial? Que motivos o eleitor acreano teria para votar em Marina e não na candidata de Jorge, Tião e Lula?

A candidatura da Marina ainda é uma mera possibilidade, mas já provocou mudanças enormes no quadro da disputa eleitoral. Mudanças na forma e também no conteúdo, pois a chamada "questão ambiental" entrou definitivamente na pauta de todos os candidatos. Que motivo o eleitor terá para votar na Marina? Simples: ela tem uma proposta para nossa vida, um outro tipo de economia e sociedade. Os outros candidatos tem alguma proposta melhor?

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6 - Para não tomar muito o seu tempo, a Frente Popular de hoje é a mesma criada na década de 90?

É claro que não. Hoje é muito maior, mais poderosa e mais conservadora. Mas isso é natural: assim como as pessoas, as organizações e instituições também envelhecem. A Frente Popular foi um importante instrumento de ação política para esta geração. As novas gerações criarão outros instrumentos. Tudo no mundo se acaba, não é mesmo?

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14 Outubro 2009

Rosa dos ventos


1.
Algo que se passa no interior, aqui dentro: subjetivo, talvez, e não interessa a ninguém? Pois eu conto do vendaval que passou. As pessoas viram na TV os vidros quebrados do aeroporto, os aviões com as rodas pra cima, que coisa!, deve ter sido forte esse vento. Foi mesmo. Arrancou árvores ao redor da minha casa, lançou galhos e folhas por toda parte, quebrou as bananeiras, revirou tudo. Isso pode ser objetivo, material e externo para quem não vive na Terra. Leio Drummond: “o mar batia em meu peito, já não batia no cais”; mas há quem não sinta a revolução no mundo.
2.
Faz tempo. Madrinha me contou de um temporal no Alto Santo, em 1950. O vento derribou tanta árvore, que da janela do Mestre dava pra ver a casa do Chico Martins, lá embaixo, longe, quase encostada ao igarapé. Contou que o pai tinha ido pra mata serrar madeira e a mãe estava costurando umas roupas na casa da vizinha e vieram correndo quando ouviram a quebradeira. Vejam só, o mundo ia se acabando antes mesmo de eu nascer. Mas as casas não foram atingidas e ninguém se machucou. Outras árvores cresceram –e depois foram cortadas, os roçados eram grandes naquelas eras.
3.
Dizem que em 9 dos próximos 10 anos o verão amazônico vai ser mais quente do que está sendo neste ano de 2009. Serradilmaciro presidente vai mandar pendurar nos Andes um gigantesco aparelho de ar condicionado, movido a petróleo extraído das profundezas. E eu saio andando com o Davi, pelo caminho que ele roçou arrodeando a capoeira, procurando o melhor lugar pra construir um chapéu de palha. Precisa cavar pra ver se tem água perto e abrir um caminho até o açude. É meu PAC de sombra e água, minha infra-estrutura de desenvolvimento pra lá de humano.
4.
Quanto mais me misturo ao povo, mais aprendo as artes da sobrevivência. Um dia saberei o suficiente para mim e quem precisar. Por enquanto, vou tirando com o terçado os galhos mais finos e empilhando a madeira das árvores quebradas pelo vento. Ajuda a fazer uma cerca, um trapiche, uma escora ou mesmo um fogo pra cozinhar macaxeira. A vantagem de um vento assim é que as sementes se espalham. O terreiro está cheio delas, de todas as espécies, que vieram de longe.
5.
Entrei no Movimento Marina Silva, na internet, que já passa de dez mil associados. Nele vejo textos interessantes, de gente simples que quer participar de uma coisa boa e expressar suas esperanças e também de pessoas experientes ou até estudiosos de assuntos diversos, num fórum aberto a todos os pensamentos. Participei da Conferência de Cultura e juntei-me a um grupo de rebeldes que quer agitar a Conferência de Comunicação. Formalizei minha desfiliação do PT e vou assim desatando alguns nós que ainda me restringem a um tempo partido, para chamar Drummond mais uma vez, “tempo de homens partidos”.
6.
A tempestade de 1950 e a enchente de 1953 são reais e enriquecem minha memória. Também foi grande a alagação de 1911, ano em que foram quase extintos os Kuntanawa e Puyanawa que, hoje, entretanto, renascem com força e esperança. As crianças de agora são jovens em 2026, que seguram seus filhos nos braços enquanto me contam seus planos para 2050. E estes números serão simples marcações auxiliares em uma memória feita de terra, sol, lua, estrelas, enchentes, secas, tempestades, fome, fartura, doença, saúde, guerra, paz... breves e eternos momentos da vida neste planeta.
7.
Aprendo ainda que a esperança não tem medo de ilusões. Costumamos chamar as crenças alheias de superstições e às nossas superstições damos o nome de crença. Nossa ideologia é ciência, a ciência dos outros é ideologia. Nossos crimes são apenas erros, os erros dos outros são crimes. Nossas árvores só dão frutos doces, as dos vizinhos dão frutos amargos. Mas vem a tempestade e joga todas no chão, por igual, e as sementes por toda parte. Vejo, assim, que a condição para manter minha esperança é respeitar e esperança dos outros, mesmo quando me pareçam ilusões. É o tempo quem diz o que há de vingar.
8.
Enfim, estou içando velas e bandeiras para aproveitar o vento que, como dizem as escrituras, sopra onde quer. E quando quer.

05 Outubro 2009

A caminho


A pergunta é: como manter a esperança, sem alimentar ilusões?

Pensei e pensei, pois há muitos becos sem saída. Revejo um texto antigo, em que me perguntava se o mundo já tinha passado do ponto de não-retorno, e noto como foi se formando essa certeza de estar vivendo numa espécie de ante-presente, um tempo ineficaz, que não se conta nem se pode contar.

Agora vem Marina com esse chamado, como se ainda desse tempo, como se ainda houvesse jeito –e tanta gente acredita e transfere seus sonhos para outra embarcação, que não posso deixar de me comover. Então vem minha filha Veriana, que daqui a uns dias chega aos vinteanos, e me chama para suas conferências e revoluções comunicativas e culturais, o que me lembra, a um só tempo, que minha descendência neste mundo resulta em inevitável compromisso e que ainda posso ensinar algum ofício, afinal necessário ou ao menos prazeroso, aprendido nas andanças e batalhas d’antanho.

Está bem, vamos.

Reservo-me, porém, o direito de alguma reserva: uma ironia que prometo jamais resvalar para o sarcasmo, boa dose de ceticismo sem a impureza do cinismo, um certo enfado para reuniões já reunidas de conversas já conversadas e distrações freqüentes para olhar a paisagem –afinal, não vim à guerra apenas para guerrear. E não me chamem em dias santos.

Levo comigo uma caneta de ponta muito fina, para desenhar, um velho livro com alguma poesia e a certeza da proteção divina. Faz tempo já me passei para o lado do mistério, mas ainda conheço alguns segredos.

Sou bom na água, melhor na terra. Serei de alguma ajuda.