Passei um tempo incomodado com uma névoa, um ente, uma coisa que rondava os dias e as noites e se apresentava como o Fantasma da Razão, uma espécie de assombração iluminista, um espírito encrenqueiro e argumentativo, interesseiro e interessado em provar que estava certo em tudo e, mais ainda, que era a medida de todas as coisas, o pensamento correto e único, o espaço em que todos os fenômenos buscam permissão para acontecer.
O encrenqueiro ficava futricando qualquer assunto -tem pinimba com tudo-, por mais importante ou banal: queria botar regra na formação das nuvens, na organização das festas, na evolução das espécies e na mudança de paradigmas -dos quais, aliás, se achava o dono e senhor e único criador.
O sujeito era mesmo metido, com sua régua na mão o tempo todo, mas dei um jeito nele e em suas mesquinhas medidas. Olhei o vento levando folhas, ouvi a chuva caindo sobre o açude, pisei no chão encharcado, senti o cheiro do mato e o gosto do biribá. Sussurrei antigos versos: "si quieres ser feliz como dices, no analices, no analices, no analices".
O chato encheu os parâmetros e foi atentar noutra freguesia.