18 abril 2009

Pra lá

Passei um tempo incomodado com uma névoa, um ente, uma coisa que rondava os dias e as noites e se apresentava como o Fantasma da Razão, uma espécie de assombração iluminista, um espírito encrenqueiro e argumentativo, interesseiro e interessado em provar que estava certo em tudo e, mais ainda, que era a medida de todas as coisas, o pensamento correto e único, o espaço em que todos os fenômenos buscam permissão para acontecer.
O encrenqueiro ficava futricando qualquer assunto -tem pinimba com tudo-, por mais importante ou banal: queria botar regra na formação das nuvens, na organização das festas, na evolução das espécies e na mudança de paradigmas -dos quais, aliás, se achava o dono e senhor e único criador.
O sujeito era mesmo metido, com sua régua na mão o tempo todo, mas dei um jeito nele e em suas mesquinhas medidas. Olhei o vento levando folhas, ouvi a chuva caindo sobre o açude, pisei no chão encharcado, senti o cheiro do mato e o gosto do biribá. Sussurrei antigos versos: "si quieres ser feliz como dices, no analices, no analices, no analices".
O chato encheu os parâmetros e foi atentar noutra freguesia.

9 comentários:

Anônimo disse...

Como te disse, já quase não brigo comigo mesma (embora procure sempre me auto-perceber), livrando-me de fantasmagóricos inimigos internos, a partir de um longuíssimo, demorado, corajoso e paciente, processo de auto- conhecimento. Mas aprendi bem a livrar-me dos fantasmas: a espantá-los mesmo antes que queiram se alojar em mim. Qualé a deles? Pelo jeito vc já fez esse mesmo aprendizado. Ou já adquiriu o que chamo de busca de manejo sábio de si. Pelo menos tenta-se. Queremos ser felizes, sem medo de ser felizes!!! XÕ, XÔ, XÔ aos que se pretendem donos da verdade, que com a pretensa imposição de um pensamento único não passam de meros umbiguistas, autoritários, narcisistas, auto-centrados. Não se olham no espelho, a não ser para se ver, com as lentes que querem ver. Mesmo completamente embaçadas, lançando sempre um olhar míope. Na verdade, não se encaram. No fundo têm muito medo de se enxergar e ver neles coisas muito feias. De que afinal podem ser do mal, única e absoluta referência de pensar e ser - a medida de todas as coisas. "Narciso só acho feio o que não é espelho", assim diz, para mim, ainda o grande poeta e cancioneiro Cae. Beijokas, lu
P.S.: continue "mandando ver" os espantalhos com esse jeito amazônico que é só teu! Ou lhes recomende permanecer no "sanatório geral" e, quem sabe, neles se dissolvam (ou, quem sabe, otimísticamente se revejam, um dia). Agora só me falta provar o biribá... Deve ser uma delícia! Só quero delícias em minha vida...

Mariana disse...

gostei, do visual e da fase + intimista, pareceu-me. bjs

Isaac Melo disse...

Caro Toinho,
seus textos são um encanto e representa ao lado de tantos outros o que o Acre tem de melhor na literatura.
Abraços.

luciahelena disse...

O primeiro comentário que vc publicou, Antonio, é meu, óbvio. Não gostei de sair anônimo, pois apenas esqueci de prencher o meu nome. Gosto de assinar tudo que escrevo. Pois assino agora: luciahelena (ou lu, ou luelena, ou luciacreana, seja como for).

Márcia Corrêa disse...

Espírito tridimensional esse. Ainda não percebeu a "quantas" andam os paradigmas.

Aleta Dreves disse...

Caro Toinho, concordo com comentário de PanPan ... "gostei, do visual e da fase + intimista, pareceu-me." Parabéns ... pelo novo blog ... me agrada mais o blogspot do que o uol... abraços

Antônio disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Márcia Corrêa disse...

Poxa! "si quieres ser feliz como dices, no analices, no analices, no analices". Agora que vim e me dei conta do quanto esses versos são assim... Perfeitos!

Antonio Alves disse...

Ao leitor que se identificou como Antônio: cara, o Altino é jornalista e está fazendo o trabalho dele. Como poucos, aliás. Sugiro que você envie ao blog dele seu comentário. Posso até publicá-lo aqui, desde que você se identifique.