03 agosto 2009

Complexo de Lear

MARINA SILVA

DURANTE CURSO de especialização na Universidade de Brasília, estudei a obra "Rei Lear", de Shakespeare. Talvez a tragédia possa nos ajudar a entender um pouco a política brasileira.

Ao sentir-se velho, Lear decide abdicar da sua condição de rei, do enfadonho encargo de governar. Chama as filhas -Goneril, Regana e Cordélia- para dividir seus bens e poder, anunciando que seria mais agraciada aquela que lhe fizesse a maior declaração de amor. E impõe outra condição: enquanto vivesse, o rei deveria ter assegurado respeito, prestígio, cuidado e, quem sabe, até mesmo o amor de suas filhas e súditos. Quer deixar de ser rei sem perder a majestade.

Cordélia, a mais jovem, com quem o rei mais se identificava, e que muito o amava, não soube dizer o que sentia. As outras não sentiam amor pelo pai, mas eram hábeis na verve.

O que torna sua jornada trágica e dolorosa é que Lear se recusa a retornar ao que um dia foi, um simples homem, rei de si mesmo. Não quer morrer, tornar-se passado. Quer ser sucessivo como é a vida, reviver a fase do prazer de poder. Quer ter séquito e até mesmo um bobo para ninar seu desamparo.

Mas ninguém pode impunemente regredir sem ser atormentado pelo fantasma da repetição. No seu obsessivo desejo de ser amado, Lear agarra-se às palavras de Goneril e Regana. E rejeita amargamente a rebeldia de Cordélia, que só sabia sentir e não se sujeita a ter que fazer uma declaração de amor ao pai, obrigando-o a perceber esse amor no único lugar onde deveria estar: no resultado afetivo de suas relações pessoais.

Não por acaso desmorona o mundo de Lear. O que antes era tão bem definido, passa a ser ambivalente. Certeza e dúvida, coragem e medo, segurança e desamparo. A loucura de não mais saber quem é.

O alto preço por ter almejado e transformado em "ato" o desejo de retornar ao lugar onde um dia esteve e querer assumir a forma do que um dia foi. Ele só existe no mundo daqueles que o aceitam e o amam tal como é. E mesmo estes, incluindo Cordélia, não têm mais como aceitar seu governo senil. Até porque foi ele próprio quem decidiu abdicar de ser quem era para tornar-se quem não mais podia ser.

Tornou-se merecedor da reprimenda feita por meio das palavras do bobo: "Tu não deverias ter ficado velho antes de ter ficado sábio".
Genial Shakespeare, trágico rei, frágil humanidade de sempre, que não quer passar. Que infringe a ordem dos acontecimentos, sem o árduo trabalho de elaborá-los. Que desiste de ressignificar-se, e quer tão somente repetir o prazer da sensação vivida nas ilusões de majestade

7 comentários:

walmir.AC.lopes disse...

Mais que uma pintura. Uma foto! Perfeito, Marina!

amanda aguiar disse...

deixa eu seguir?

Válber Lima disse...

Se não aceitar o fim fosse sem dor, não seria dramática e emocionante a vida. Agora, não doer no fim não significa aprender a ser sábio. Preciso será continuar a procura, o pensamento passando o saber para os ombros dos mais que virão. Divino é aceitar isso e conhecer qual o tempo que nos coube e cabeu só a quem viveu.

Ana Regina disse...

Sobre ser sábio e velho e vice-versa...
A vida seria até doce... talvez... se o homem conseguisse compreender que o segredo dela é sua impermanencia...
Onde td que amamos e odiamos jamais fica...
Esse segredo espiralado nós é contado baixinho no ouvido desde que nascemos...
Temos e somos um pouco do Rei que o grande dramaturgo ingles teceu pro mundo da arte e pra arte do mundo...
Valeu Marina linda!!!
Gracias Toinho!

Plínia Campos disse...

Esses textos da marina sã arrebatadores.

luelena disse...

De fato, contudo e, apesar de tudo, o Sarney (um histórico corrupto, político medíocre e inescrupuloso, vil), não quer perder sua magestade. A volúpia pelo poder é muito grande entre os políticos que estão aí...
Só há uma política séria e ética com visão ampla de futuro que conheço é: MARINA SILVA. Ela é única!!! Se se canditar para a Presidência da República (oxalá que sim) será a única digna de meu voto. Além de suas grandes virtudes pessoais e como política, é a única entre os pré-candidato(a)s que tem projeto amplo para colocar o Brasil num outro patamar civilizatório na promoção efetiva do desenvolvimento sustentável; pois, ao contrário dos demais, há muito ingressou no século 21 com os desafios e premência de construção de uma sociedade ancorada na ética da sustentabilidade sócioambiental. Ela tem vontade política para isso, programa e compromisso histórico. E, Marina, prescinde de trono e coroa para ser rainha. Do jeito que é naturalmente já é uma "rainha" sem adereços. Simplesmente Marina. Marina, Presidente do Brasil!!!!!!

luelena disse...

Não quero ficar eufórica ainda, afinal a Marina nem tomou sua decisão cabal; mas ter uma presidente da República que não vive das ilusões da magestade e não tem complexo de Lear seria algo ímpar na história do Brasil entre todos os políticos que compuseram esta história.
Já estou começando a ter esperanças renovadas... Vamos então aguardar a decisão de Marina. Estou ansiosa torcendo pelo sim. Já existem muitos votos em potencial aqui no sul. Creio que ela seria a única alternativa com credibilidade para as pessoas que acreditaram e se decepcionaram, que estão profundamente insatisfeitas e que até parece que não acreditam mais na política (ou nos políticos). Porém quando o nome da Marina é cogitado para concorrer a presidência vi muitos olhos brilharem. Acho que com ela poderemos reacender a chama.