06 novembro 2009

Umidades

Chuva todo dia, na lua cheia que passou oculta em nuvens. A manga madura caindo, acabou a fome no mundo. Inverno pegando água, a capoeira crescendo, mato verde brilhando em dias úmidos e amenos. Da floresta vem uma cantiga de força. Quem escuta levanta a cabeça, assuntando, achando rumo, e sai para o tempo a lançar chamados. Avia, menino, que é hora. Vambora, menina, cuida. A rede é boa, a vida é mais.
.
Vi as fraquezas criadas em estufas, sentadas em plástico, desenhando no vidro, pensando dinheiro, delimitando vazios. Pareciam fortes, as fraquezas, naquele lugar sem chão e sem céu. Pra não morrer, procurei a porta (nem janelas havia).
.
A Terra é meu refúgio, minha restauração. Uma noite cheguei e desci para o açude, nu e distraído. Nas margens encontrei manchas escuras que se moviam devagar. Acendi a lanterna para espantar um bando de capivaras -umas fêmeas com filhotes, o macho gritando ameaçador na ponta da barragem. Outra noite tinha um cachorro magro, doente, sem força para latir -soltava um ganido apavorante e rouco- e ninguém sabe de onde vinha. No meio-dia estava dentro dágua, moribundo, só a cabeça de fora. Esperei que morresse e joguei seu corpo no capim distante, junto a umas árvores onde os urubus tomariam chegada. Vida e morte dão respeito ao mundo, pelas duas aprendo.
.
Três palmos já subiu o açude des`que a chuva chegou. Continuar assim, vai sangrar na próxima lua cheia e ficar de um verde limpo refletindo as árvores. Vou viajar em minhas campanhas: uma hora subo os rios interiores pra rever os amigos na floresta, outra hora vou às cidades grandes saber de mudanças no planeta. Tenho este pedaço simples e rude para meus retornos, as voltas que um homem tem que dar ao redor de si mesmo.
.
Eu não viria aqui se não houvesse Amazônia.
.

9 comentários:

Natalia Jung disse...

eu também não....sinto falta de entrar nela, lá onde não tem mancha cor-de-rosa nos mapinhas, me agrada mais o ver-de perto.

Marisa Fontana disse...

O diálogo entre saberes começa dentro de cada um. Essa sua conclusão me fez lembrar do ditado chinês que diz:"Antes de consertar o mundo o homem deve dar três voltas ao redor de sua casa."

luHelena disse...

Tu mais uma vez inspirado. Que belezura e formosura de texto!
Saudades da Amazônia, saudades do Acre!!! Vivo em minha terra, mas nela nada seria se minha mente e meu coração não fosse um pouco (bastante) amazônido. A vivência que aí tive permanece continuamente em minhas entranhas. Vomimbora para a terra das águas barrentas perder-me na floresta. Só para escutar os sonidos dela, toda encharcada de chuvas torrenciais, vendo os pássaros voarem...
Beijos,
luciacreana

Picaretas da Távola Redonda disse...

Olá Toinho,

estou entrando em contato para lhe apresentar o documentário que fizemos da RESEX ARAPIXI "Das margens da história às margens do Purus: vida e resistência na RESEX ARAPIXI". Aliás, não haveria melhor hora para apresentar um filme da floresta depois desse seu texto belissimo.

Já trocamos algumas idéias algumas vezes, concordamos e discordamos outras vezes, no entanto sempre tive respeito pelas suas palavras e saber.

Queria agora aproveitar para apresentar um pouco do nosso trabalho que fazemos dentro do ICMBio. A construção do filme foi de uma forma meio mambembe eu diria. Com imagens captadas durantes as viagens que fazemos na gestão da Unidade, vimos que tínhamos um história pra contar... e estamos contando.

Mais do que um filme da RESEX, o documentário é um filme das pessoas que ali moram.

Ele a principio está no YouTube dividido em 3 partes. Estamos em busca de patrocínio para fazer as cópias.

Você me daria um enorme prazer se pudesse ver o documentário.
Muito obrigado
Abraços
Felipe Mendonça

1a. parte
http://www.youtube.com/watch?v=9m1wYIlm6IM

2a. parte
http://www.youtube.com/watch?v=xM4Kf7d5b7s

3a. parte
http://www.youtube.com/watch?v=lUgNM_TyJOg

Anônimo disse...

“... el silencio lleva mucho tiempo habitando nuestra casa, llega ya la hora de hablar para nuestro corazón y para otros corazones, de la noche y de la tierra deben venir nuestros muertos, los sin rostro, los que son montaña,que se vistan de guerra para que su voz se escuche, que calle después su palabra y vuelvan otra vez a la noche y a la tierra, que lleven verdad su palabra, que no se pierda en la mentira”.

Don Durito

luHelena disse...

Nota de Esclarecimento:
Quero sim, estou louca para andar pela floresta toda umedecida pela chuva, ouvindo seus próprios sonidos. Mas, nesse momento, quero ouvir apenas os sons das árvores, das espécies animais e vegetais, sem nehum barulho de gente humana. Assim como as praias desertas, a floresta é meu refúgio tb - minha restauração.
Ajude-me ir, simplesmente ir.
beijos,
lu

Ana Regina disse...

Toinho querido...

Antes de voltar a cidade põe na mochila tudo que a mata te presentear...
Se encontrares um sobrevivente dos "Gigantes" faz um cumprimento de PAZ...e espera no olho da alma tudo que ele quiser te ensinar...

E avia minino...força pra enfrentar as "fraquezas criadas em estufa"

Ulisses disse...

Genial Toinho! A confraria dos últimos românticos (coisa nova nessa blogosfera acreana) inspira-se, acompanha e indica esse sensacional blog.

Visite-nos!

Thiago Silva disse...

Lindo texto Toinho!
Inspirador para o jogo da vida que, aliás, a cada dia faz mais sentido ao meu olhar... ou não.

Muito compliquei as percepções dos meus derradeiros obstáculos nesses últimos meses (alguns dos quais você é conhecedor e conselheiro, digamos assim). Todavia e contudo, realizei que tenho recebido muito mais do que já perdera...

Obrigado pelas suas belas palavras!
Luz e paz!
E um feliz Natal!
Que Cristo continue irradiando sabedoria em sua mente e banhe seu coração com serenidade e alegria!