Preciso vencer uma impaciência. É meio complicado de explicar: é impaciência com o alcance das palavras, idéias, conceitos, planos, estratégias, tudo que é tentativa de enquadrar a redondeza da terra. Passei de todos os conceitos e não sei como me comunicar sem eles. Não dá pra dizer algo tipo assim, entende? A gente tem que ser simples e claro. Mas as palavras estão gastas e opacas. Quer ver? Olha só o Meio Ambiente. É algo que foi inventado há pouco tempo, é novidade pra tanta gente e já nem diz muita coisa. Antes não existia meio ambiente. Existia a natureza: os rios, as árvores, os animais e nós, humanos. Existia o mundo e sua vastidão a ser percorrida. Existia o trabalho com a terra e seus recursos. O meio ambiente só passou a existir quando nós, humanos, nos afastamos da natureza. Quando o mundo foi percorrido tantas vezes que ficou pequeno. Quando os recursos da terra, sob o ritmo do trabalho industrial, começaram a dar sinais de esgotamento. Formou-se, então, a idéia do que estávamos perdendo. A natureza foi se acabando, ficou só o meio ambiente... e a minha impaciência, pois com isso não dá pra fazer ou refazer um mundo. Bem, pelo menos sei por onde começar: vencer essa impaciência.
03 janeiro 2010
Encontro
31 dezembro 2009
Janeiro por inteiro
Marina Silva
EM BREVE entraremos em janeiro, mês que recebeu esse nome em homenagem a Janus, que na mitologia romana é o deus dos inícios. Representado por duas faces em oposição, olha também para o que é findo, para o passado. É o encarregado de abrir a porta para o novo, mas lembrando sempre que as portas têm simultaneamente dois lados: a entrada é ao mesmo tempo a saída.
Sob a metáfora de Janus entramos em 2010, um ano como poucas vezes se viu na política brasileira, tantos são os significados presentes, de passado e de futuro. Alguns dos protagonistas desse ano incomum tentam o impossível. No cenário meticulosamente engendrado pelas duas principais candidaturas oficiosas, de situação e de oposição, Janus está subtraído de uma de suas caras, condenado a ter recortada de sua substância divina a metade da saída, do novo.
A intenção parece ser apenas medir os dois passados, mesmo em prejuízo do futuro que nos une.
Quer-se passar pela porta sem abri-la. Assim, o Janus mutilado da política brasileira fica incompleto para exercer sua função de integrar num mesmo sistema o status quo e a mudança, o ido e o porvir. Em lugar da refinada reflexão mitológica sobre o momento de passagem, entra a soberba imposição de uma queda de braço entre autoavaliações hiperbólicas, a competição entre quem fez mais e melhor aos próprios olhos, como se essa satisfação narcísica fosse um fim em si mesma, acima de tudo, inclusive do próprio país.
A isso se reduziu a política? Perdida sua capacidade de antecipar o futuro, é apenas uma contabilidade forçosamente distorcida entre projetos publicitários de poder, onde o enaltecer-se às vezes se sobrepõe ao reconhecimento do continuum que nos trouxe até aqui e das alternativas para seguir adiante.
O Brasil não pode aceitar esse jogo reducionista e vaidoso, preocupado apenas em medir o passado, sem instrumentos que permitam projetá-lo para o futuro e fazer escolhas. Jogo no qual há que se adotar um lado ou outro, de forma maniqueísta, como se fossem depositários excludentes de todas as virtudes. Saindo da mitologia romana para o ensinamento bíblico do livro de "Gênesis", de tanto olhar para trás podemos nos condenar a virar estátua de sal, como no triste episódio da mulher de Ló.
É preocupante a tentativa de subtrair dos cidadãos a autonomia para fazer suas escolhas, porque o que lhes está sendo apresentado não é a informação completa e necessária para assumir a plena responsabilidade pela decisão tomada. O que podemos desejar para 2010 é, no mínimo, que Deus nos ajude a ultrapassar o portal do futuro com nossos próprios pés.
18 dezembro 2009
No clima
Estive em Brasília em outubro e fiquei surpreso ao notar que Marina, embora falasse da importância da Conferência de Copenhague, não parecia estar ansiosa com os resultados. Perguntei a respeito e ela deu a entender que o resultado real era a mobilização e o esclarecimento da população e que isso já estava ocorrendo, independente das posições oficiais dos governos. Hoje entendi isso com mais clareza ao ler o artigo de Saleemul Huq, que publico agora, no momento em que Obama, Lula e outros "líderes" iniciam mais uma reunião de emergência para tentar chegar, nos últimos momentos da Conferência, a um acordo que não salve o mundo mas ao menos as aparências.
O dia que tudo mudou em Copenhague
Discuti com os que negam a mudança climática e têm fortes vínculos com indústrias poluentes, e que nunca estiveram nas aldeias e comunidades vulneráveis, onde a mudança climática já mostra seus impactos. Se o fizessem, notariam o dano que sua ideologia causa nas pessoas que menos contribuíram com esta ameaça mundial. E agora, em dezembro de 2009, em Copenhague, creio que chegamos a um ponto de inflexão. Copenhague será lembrada nos próximos anos. Não pelo que ocorrer hoje, quando os líderes mundiais encerrarem a 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP-15), mas pelo que ocorreu no sábado passado.
Naquele dia, gente dos mais diversos estilos de vida de todo o mundo assumiu a iniciativa que deveria ser ostentada pelos que se dizem nossos líderes. Além das palavras que estes presidentes e primeiros-ministros decidirem incluir em um “protocolo” ou “acordo”, é o povo do mundo que tem de escrever no muro. Os líderes que decidirem ler essas palavras nos farão avançar. Aqueles que as ignorarem serão arrastados pela maré da história. O dia 12 deste mês assinala o momento em que grande parte do mundo se levantou para executar uma mudança verdadeiramente global. Haverá retrocessos (como um acordo medíocre esta semana), mas a maré já se movimentou. E não pode voltar atrás.
Mais além do que conseguirmos em Copenhague – e sou otimista, apesar das manobras políticas – estamos em um caminho novo e inexorável. Os líderes que compreenderem isso podem proceder dos lugares mais inesperados. Vejamos, por exemplo, o presidente Mohammad Nasheed, da diminuta Maldivas.
Em poucos meses voltarei a Bangladesh para combater a mudança climática real, para opor-me às más (ou inadequadas) políticas que a abordam. Minha ambição para os próximos anos é ajudar a população de um dos países mais pobres e vulneráveis – e, entretanto, mais resiliente e inovadora – para que deixe de ser o emblema mundial de vulnerabilidade e passe a ser reconhecido como, talvez, o que melhor se adapta.
Volto à minha pátria para criar um novo Centro Internacional para a Mudança Climática e o Desenvolvimento, no qual aspiramos aprofundar a capacidade de governos, organizações da sociedade civil, pesquisadores, acadêmicos, jornalistas e muitos outros atores das nações em desenvolvimento para responder aos desafios que a mudança climática apresenta. O novo centro oferecerá capacitação sobre como sobreviver (e inclusive prosperar) em um mundo aquecido. Focará principalmente na adaptação à mudança climática nas nações menos adiantadas, mas não se deterá nisso.
Na verdade, planejamos criar instrumentos para que os países industrializados possam enfrentar impactos climáticos adversos. Paradoxalmente, o mundo rico que causou este problema não planejou em detalhe com adaptar-se a ele. Volto à frente de combate à mudança climática, onde a luta real já está em marcha. Vou sabendo que milhões de pessoas de todo o mundo compartilham minhas esperanças e meu otimismo quanto a que a humanidade pode unir-se para enfrentar o desafio que pode determinar nossa vida sobre a Terra.
* Saleemul Huq é membro do Instituto Internacional para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento e autor principal dos informes do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climática (IPCC), ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 2007.
Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.
© Copyleft - É livre a reprodução exclusivamente para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída.
02 dezembro 2009
27 novembro 2009
descaminhos
O jovem me aborda no terminal rodoviário, entre a chuva e o ônibus, para me perguntar, inicialmente, como vai o PV. Respondo que não tenho intenção de me associar a nenhum partido, apenas vou ajudar Marina Silva no que for possível. Daí passamos a comentar todo tipo de insuficiências do Estado e da chamada sociedade civil diante dos problemas maiores, aqueles grandões, para os quais não há nem mesmo um sonho fugaz de solução.
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Há pouco li um artigo em que fala da obsolescência do Estado. Sim, é verdade, mas não é o único a sofrer desse mal. Há mesmo uma obsolescência do mundo, do pensamento, da civilização, da raça humana. Há uma máquina de non sense ligada e o dia é uma partida de ping-pong entre a ansiedade e a prostração. As pessoas nem sabem por que estão assim chateadas. Qualquer ideologia é tentativa de auto-engano, fuga apressada à depressão, prece balbuciada diante do abismo.
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O que me preocupa é essa estranha mania de me preocupar. Falei ao jovem, antes de entrar no ônibus: o povo se incomoda, se mobiliza e inventa coisas novas, que viram cultura e política. Assim as coisas mudam, Mas depois tudo se acomoda e sobrevém o cansaço. Entramos no refluxo, sem criatividade, insistindo nas mesmas soluções falsas: mais casas, mais polícia, mais petróleo, é assim que estamos agora. Talvez daqui a um tempo apareçam novos caminhos.
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A dificuldade com o Estado é que ele se instala na psique coletiva como uma espécie de Ego, imperativo e inamovível, mediando todas as linguagens ou, pelo menos, tentando estabelecer controle sobre elas. Como o mundo real é muito maior e mais complexo, ficamos sempre com essa sensação de insuficiência: nosso estadinho não dá conta, é areia demais pro seu caminhãozinho. Ficamos, assim, como os governos: caricatos e vulgares no meio de uma propaganda evidentemente enganosa. Fugimos e dissimulamos porque temos vergonha ou, o que é pior, não temos.
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Vi uma proposta de um pessoal em Brasília, chamada Terapia Comunitária. Nem sei bem do que se trata, mas já gostei. Acho que podemos ir recuperando antigas e desenvolvendo novas formas de convivência. É importante que sejam não-institucionais. E que não busquem qualquer objetivo, mas sejam, como se costuma dizer, um fim em si mesmas. Algo assim como as cantigas de roda que as crianças de antigamente costumavam fazer. Por fazer.
13 novembro 2009
Com o tempo...
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Com o tempo, foram cansando. Nos dias de luta, param para almoçar -e às vezes o fazem juntos, conversando sobre a vida. Terminam cedo, aos sábados.
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Poeta passa agora muitos dias em casa, cuidando das plantas e escrevendo um livro, um longo e minucioso inventário de estratégias para desmontar a Máquina do Mundo.
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Ela também já não se empenha tanto em manter-se funcionando. Tem dias que fica por aí, totalmente destrambelhada. O mundo, por isso, está cada dia mais cheio de falhas e desastres. Mas em alguns dias surpreendentes é invadido por enormes e súbitas ondas de poesia.
06 novembro 2009
Umidades
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Vi as fraquezas criadas em estufas, sentadas em plástico, desenhando no vidro, pensando dinheiro, delimitando vazios. Pareciam fortes, as fraquezas, naquele lugar sem chão e sem céu. Pra não morrer, procurei a porta (nem janelas havia).
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A Terra é meu refúgio, minha restauração. Uma noite cheguei e desci para o açude, nu e distraído. Nas margens encontrei manchas escuras que se moviam devagar. Acendi a lanterna para espantar um bando de capivaras -umas fêmeas com filhotes, o macho gritando ameaçador na ponta da barragem. Outra noite tinha um cachorro magro, doente, sem força para latir -soltava um ganido apavorante e rouco- e ninguém sabe de onde vinha. No meio-dia estava dentro dágua, moribundo, só a cabeça de fora. Esperei que morresse e joguei seu corpo no capim distante, junto a umas árvores onde os urubus tomariam chegada. Vida e morte dão respeito ao mundo, pelas duas aprendo.
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Três palmos já subiu o açude des`que a chuva chegou. Continuar assim, vai sangrar na próxima lua cheia e ficar de um verde limpo refletindo as árvores. Vou viajar em minhas campanhas: uma hora subo os rios interiores pra rever os amigos na floresta, outra hora vou às cidades grandes saber de mudanças no planeta. Tenho este pedaço simples e rude para meus retornos, as voltas que um homem tem que dar ao redor de si mesmo.
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Eu não viria aqui se não houvesse Amazônia.
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03 novembro 2009
Claude Lévi-Strauss (28.11.1908 – 31.10.2009)
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FOLHA - O que o senhor pensa das idéias ecológicas, que se tornaram fortes em todo o mundo e ganharam particular importância em países como o Brasil?
LÉVI-STRAUSS - Sou a favor, e de uma maneira tão extrema que acaba se tornando puramente teórica. O que norteia o pensamento ecológico é que ele proclama a vontade de defender solidariamente a natureza e o homem. Defender a natureza para as necessidades e dentro dos interesses do homem. Estou convencido de que as coisas são profundamente contraditórias. Se tivesse que tomar posições ecológicas, diria que o que me interessa são as plantas e os animais - e danem-se os homens. É óbvio que se trata de uma posição indefensável. Por isso, guardo-a para mim.
FOLHA - O senhor sempre tomou o partido da ciência, mas, na releitura de Montaigne que faz em História de Lince, mostra também suas distâncias em relação a uma fé no conhecimento. O senhor se tornou mais cético em relação à ciência?
LÉVI-STRAUSS - A lição que tirei de Montaigne é que estamos condenados a viver e pensar simultaneamente em vários níveis e que esses níveis são incomensuráveis. Há saltos existenciais para passar de um a outro. O último nível é um ceticismo integral. Mas não se pode viver com ceticismo integral. Seria preciso se suicidar ou se refugiar nas montanhas. Somos obrigados a viver ao mesmo tempo em outros níveis em que esse ceticismo está moderado ou totalmente esquecido. Para fazer ciência, é preciso fazer como se o mundo exterior tivesse uma realidade e como se a razão humana fosse capaz de compreendê-lo. Mas é "como se".
(Trechos de entrevista publicada na Folha de S. Paulo em 3/10/1993)
28 outubro 2009
Menos mal
CÂMARA APROVA REGIME DE URGÊNCIA PARA REFERENDO SOBRE MUDANÇA DO FUSO HORÁRIO NO ACRE
Projeto de Flaviano Melo (PMDB-AC) foi aprovado por 267 votos a favor e 40 contra. Partido dos Trabalhadores (PT) trabalhou ativamente contra a aprovação.
(Leia no blog Ambiente Acreano, de Evandro Ferreira)