12 julho 2010
Em breve, no ar
Durma-se
A pandemia de loucura é semelhante ao aquecimento global: tem períodos de pico e de baixa, mas nos últimos dois séculos vem alterando-se para mais, ou seja, no pico atinge níveis cada vez mais elevados e na baixa não retorna ao ponto anterior, fica sempre um pouco mais acima. Nos períodos de menor loucura, os dias mais calmos deste novo século, há mais insanidade que nas grandes guerras do século passado.
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Mudaram também as formas de contágio e transmissão. Antes, a loucura se disseminava quase da mesma forma que as demais insanidades, por proximidade e contato direto, quase físico. Depois passou a disseminar-se também como as ondas de rádio, potencializada principalmente pelas novas tecnologias da comunicação. Agora transmite-se ainda por conexões sub e supra-psíquicas comparáveis aos fenômenos da física quântica, não-causais e atemporais. Uma pessoa perturba-se
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A idéia de perturbação possibilita focar a atenção nas formas mais violentas da loucura, deixando de lado a infinidade de formas mais ou menos brandas, no amplo espectro entre a leseira e o delírio, que muitas vezes incorporam-se à paisagem sem provocar danos aparentes, ruídos ou rupturas, e às vezes são até confundidas com virtude e bom comportamento. Também a loucura violenta é confundida com a maldade e o crime, embora seja extremamente necessário distinguir uma coisa da outra. A frouxidão ética pode ser sintoma da perturbação ou fornecer-lhe campo fértil para o crescimento, mas o mais comum é que a maldade esperta use a loucura como desculpa.
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De todo modo, estas distinções servem tão somente para a auto-defesa, pois não há mais um poder externo e impessoal para mediar conflitos e providenciar soluções. Estado, mercado, coletivos, organizações e até deuses, ideologias e causas perderam a autoridade ao perderem a alteridade em relação à loucura, da qual cada vez mais participam e usam, promovem e potencializam. O dr. Simão Bacamarte atende às terças e quintas, na parte da tarde, no máximo dois ou três clientes e lhes dá algumas pílulas para regularizar o sono.
28 junho 2010
entretempo
O interessante paradoxo é a aparência de mesmice. Tudo se repete: palavras, gestos, percepções exauridas de significado. Repito a palavra palavra até que seu som descole de qualquer sentido e seja objeto puro, opaco e obtuso. Assim, uma dislexia arrítmica se instala como semelhança do real, anti-metáfora, meta fora.
Mundo afora, os economistas discordam: uns dizem que a crise pode voltar, outros que ela não foi embora. Nas cidades alagadas do nordeste, as pessoas colocam fotografias para secar ao sol e as olham tentando lembrar de quem eram. Não desprezo a possibilidade de que o mundo tenha acabado.
Resta, entretanto, este entretempo que tento compreender.
14 junho 2010
09 junho 2010
31 maio 2010
Os vivos e os mortos
Aproveitando a comovente lição de história, levei meu filho para passear entre os mortos. Aqui, quase em frente ao jazigo da família Fecury, onde ficou seu Arnóbio, está o túmulo de Flávio Baptista, avô desse menino Flaviano Melo, um coronel dos negócios e da política, dono de metade da capital acreana nos idos de 1940. Ali, perto da entrada, a família Mansour, onde está meu saudoso professor Elias, um filósofo transportado direto da antiga Grécia para as margens do rio Acre. E poderosos políticos e ricos comerciantes e respeitados intelectuais, com suas virtudes e pecados, duas ou três histórias trágicas, meia dúzia de comédias, nada que manchasse as lajes e esculturas, que disso a chuva se encarrega -as cores da história o tempo cuida de desbotar.
Vimos também os avós do menino, é claro. A professora Lindaura em seu modesto túmulo amarelo dá lições de responsabilidade e dedicação ao trabalho. O velho Vieira, jornalista e advogado entre tantos outros ofícios, numa fila de importantes irmãos da maçonaria, conta causos de irreverência e boemia que no mundo de hoje só escandalizam as senhoras católicas mais idosas e recatadas.
Todos estão, como escreveu Manuel Bandeira, dormindo profundamente. O que deixaram de fazer talvez tenha agora mais peso do que aquilo que fizeram sobre a terra. Mortos, são todos sábios e aconselham gravemente aos vivos que passeiam em redor de seus ossos: tudo passa, meus filhos, tudo se acaba em pó que o vento carrega. E o mais é vaidade, só vaidade, nada mais.
13 maio 2010
Um momento
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Um inventário do silêncio registra: vizinho varrendo o quintal, filhotes de cachorro brincando, crianças correndo, ônibus que passa, periquitos no coqueiro, mãe chamando filho para tomar banho, o martelo de alguém que conserta uma escada, alguma música incidental num rádio distante. Cabe mais, talvez, tudo a seu tempo.
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Cabe ouvir.