06 setembro 2022

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Mais embaixo

Escrevi um artigo, na semana passada, com o título “De quem é esse buraco?”, para questionar a omissão do poder público na invasão de um terreno do Estado na Estrada Irineu Serra e especular sobre o possível patrocínio político por trás da invasão. O artigo foi publicado em dois sites de notícia (acreaovivo.com e noticasdahora.com.br, agradeço aos editores de ambos), circulou em mensagens de whattsapp nos celulares de algumas dezenas de pessoas, incluindo as autoridades estaduais e municipais ligadas ao assunto e, obviamente, não gerou nenhuma resposta prática. 


Eu poderia repetir a pergunta e insistir em saber de quem é, afinal, aquele buraco. Mas já sabemos que o terreno é do Estado e quem teria a responsabilidade de cuidar dele é o governador Gladson Cameli. Seria, talvez, interessante saber quem está patrocinando a invasão, porque demonstra ter um grande poder. No dia mesmo em que meu artigo foi publicado, chegaram alguns caminhões entregando madeira e, no dia seguinte, barracos novos e bem firmes sobre grossos esteios foram erguidos. Alguns desses barracos passaram a ser ocupados também à noite, com fios da rede elétrica sendo puxados pela parte de trás do terreno, das ruas do Conjunto Jorge Lavocat. Mas ontem foi feita uma ligação da Estrada Irineu Serra e instalados alguns postes no caminho central, (uma rua, sim, senhores!) entre os lotes demarcados e ocupados. 


Não sei se a Energisa, que dizem pertencer ao grupo de empresas da família do governador, está sabendo dessas ligações. Também não sei quem está fornecendo a madeira e o transporte. Só vejo que a invasão não parece ser muito pobrezinha. Deve ter um patrocinador muito interessado em resolver o grave problema do deficit habitacional na capital do Acre. Com o investimento que está fazendo e a rapidez no andamento, imagino como o local estará daqui a 30 ou 40 dias. 


Mas fico ainda mais curioso sobre os motivos do sumiço total do poder público no caso. O governo estadual abandona seu patrimônio (nosso patrimônio) e desobedece descaradamente a uma ordem judicial. A Prefeitura não aparece na Area de Proteção Ambiental colada ao terreno invadido nem para olhar a queimada que transformou em cinzas vários hectares em frente, quem sabe como preparação para a continuidade do loteamento no outro lado da estrada. Ontem, o condutor de um carro com propaganda de um candidato a deputado, passando pela APA, simplesmente cortou um ipê na margem da estrada e o transportou para usar na decoração de alguma festa e ainda ofendeu o morador do bairro que o abordou. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente recebeu as fotos da ocorrência, talvez devamos esperar uma ação… depois da eleição?


Porque é disso que se trata, comentam as andorinhas: fiscalização, reintegração de posse, multa, essas coisas que impedem ou punem o ilícito, só depois da eleição. Tudo indica que, com o governador dedicado exclusivamente à campanha reeleitoral e com o vice-governador tendo se passado para a oposição, as decisões e ações do Estado foram terceirizadas e o Acre está sendo governado por assessores. E os assessores, principalmente em época eleitoral, tem três problemas: 1) são medrosos, não fazem nada que possa quebrar essa mercadoria frágil que é o voto e ficam apavorados com o uso que os adversários podem fazer de cenas de um despejo; 2) são burros e não sabem fazer o simples cálculo de que cada voto ganho com um invasor pode corresponder a um voto perdido com a comunidade invadida; 3) são ignorantes, pois não conhecem a história do lugar nem sabem o que fazer com ele. 


Eu poderia revelar outros adjetivos que me ocorrem para qualificar os “tomadores de decisão” envolvidos no assunto, incluindo o Ministério Público, que deveria enquadrar o governo nos rigores da lei para que cumpra suas responsabilidades e simplesmente faz cara de paisagem como se nada estivesse ocorrendo. Mas não vou dizer nada, porque os adjetivos poderiam ser considerados desaforos e os rigores da lei não faltam para cidadãos sem poder. Vou apenas reproduzir o comentário que ouvi de uma antiga moradora do bairro: “parece que está faltando homem no Acre”. Dito por mim, poderia ser entendido como uma expressão um tanto machista, mas a autora do comentário é uma senhora com mais de 80 anos de idade, que sabe a diferença entre homens e meninos.


Vou repetir, sendo mais explícito: os conselheiros políticos do governo são frouxos e burros, o  governador deveria contrariá-los e fazer o que é certo. Poderia seguir o exemplo de Jorge Viana. Quando era prefeito, Jorge tirou centenas de barracas de comércio que estavam instaladas há mais de dez anos no lugar em que pretendia construir -e de fato construiu- o Terminal Urbano. E quando era governador, tirou outras centenas de barracas instaladas há décadas nos arredores do Mercado Velho, para transformá-lo em cartão postal da cidade. Não me lembro o que diziam seus assessores, naquelas ocasiões, mas não duvido que ele tenha enfrentado os temores e as descrenças de muitos. E não perdeu eleição por isso, deixou a Prefeitura e o governo com altos índices de aprovação e popularidade. Mas uma coisa é você ter um bom plano e fazer o que é preciso para executá-lo; outra coisa é você ter um bom emprego e fazer de tudo para não perdê-lo.


Tudo indica que o buraco vai continuar se aprofundando. E eu vou continuar falando, pois é só o que posso fazer.

31 agosto 2022

 De quem é esse buraco?





No mês passado começou, mais uma vez, a tentativa que se repete, todos os anos, de invadir um terreno aqui na Estrada Irineu Serra. É um terreno de 27 hectares pertencente ao Estado. Fica colado a uma Área de Proteção Ambiental (APA) municipal, que foi decretada pelo prefeito Angelim em 2005 para preservar o único trecho de floresta que ainda resta no perímetro urbano, nas margens do igarapé São Francisco, e o patrimônio histórico e cultural da comunidade de origem do Daime. 


Desde o início, a comunidade alertou o governo para a importância do local, onde existe a baixada de um antigo açude e não é apropriado para habitação. Afinal, nos arredores já vivem milhares de famílias pobres, sem saneamento, sem posto de saúde, sem segurança, com transporte precário. Colocar mais algumas centenas de famílias no local só pode piorar a situação. Mais adequando é instalar um parque, com área de lazer, uma escola técnica ou a sede da Secretaria de Meio Ambiente, enfim, algo mais de acordo com a importância ambiental e histórica da área e que melhorasse a qualidade de vida e a saúde da população nela residente.


Todo ano tem um começo de invasão. Mas os governos passados, embora não encontrassem uma destinação adequada para o terreno, ao menos cuidavam dele. Cada tentativa de invasão durava poucos dias, logo vinha a ordem de desocupar a área. Este ano, entretanto, está sendo diferente. Apareceu uma invasão com assessoria jurídica, demarcação organizada de lotes, espaços reservados para futuras ruas e carros novos estacionados nas proximidades, nada de fuscas ou pampas. A lona dos barracos já está dando lugar à madeira e aparece, aqui e acolá, algum tijolo.


A comunidade do Irineu Serra pergunta, escandalizada: cadê o governo, que não cuida do terreno? E olha, que não é um terreno qualquer. Por causa dele, o governador Gladson Cameli brigou com uma ruma de empresários quando anunciou que ali seria instalado um Centro Administrativo, uma obra de 300 milhões, dos quais ele disse já ter 100 milhões e por isso estava publicando o edital de licitação. E no início deste ano, o senador Márcio Bittar anunciou que tinha uma emenda para construção de 470 casas e o local escolhido, adivinhem, era aquele mesmo. O terreno tem um grande buraco, onde ficava a parte mais funda do antigo açude, mas não é um buraco insignificante, tem importância orçamentária federal e estadual. 


Em Rio Branco, as invasões costumam ser protegidas ou patrocinadas por políticos. Todo mundo lembra da “invasão do Alípio”, patrocinada pelo célebre vereador ativo e operante nos anos 90, que depois foi batizada de Bairro Raimundo Melo para ganhar a proteção do governador, depois senador, Flaviano Melo. Estão aí na cidade bairros com nome de Ilson Ribeiro, Mauri Sérgio e vários outros, oriundos de invasões que buscavam proteção dos homenageados ou de seus amigos que estavam no governo ou na prefeitura.


Pensei, então, que a invasão na estrada Irineu Serra poderia ter o patrocínio de algum político importante, que tenha o poder de paralisar o judiciário e a polícia para que deixem as coisas correrem soltas. Afinal, estamos numa campanha eleitoral e ninguém quer perder votos, não é mesmo?


Além dos nomes do atual governador e do senador já citados, ambos candidatos na eleição deste ano, quem mais teria interesse em ser bonzinho com os loteadores do terreno, pra não aparecer como “perseguidor” e, quem sabe, até garantir gente para “trabalhar na campanha”, que é como se chama a atividade da indústria eleitoral que reduz o desemprego de dois em dois anos?


Pensei no prefeito Bocalon, que instalou uma tenda no local no Dia do Meio Ambiente, plantou árvores na estrada e fez discurso ecológico. Nos últimos meses, a Prefeitura, que é responsável pela gestão da Área de Proteção Ambiental, simplesmente desapareceu. Ninguém dá as caras, nem sequer manda um áudio para o grupo de whattsapp do Conselho da APA. O secretário de Meio Ambiente, Normando Sales, afastou a funcionária que atendia à comunidade e sumiu no trecho, não faz contato nem por telefone. Estarão eles, prefeito e secretário, muito ocupados com a campanha de seu padrinho Petecão?


Eu poderia incluir o ex-prefeito Marcos Alexandre e o ex-senador Jorge Viana, candidatos ao governo, na lista de possíveis patrocinadores da invasão, mas não tenho qualquer indício de que estejam metidos nisso. O partido deles, sabemos, há muito tempo saiu do ramo de ocupação de terrenos. E o ex-prefeito, que deu grande apoio à APA na sua gestão, não ocupava um cargo na assessoria do poder Judiciário assim tão importante, que pudesse paralisar a ação de despejo que o juiz, afinal, emitiu. 


O Ministério Público? Difícil dizer. Tem legalmente o poder, que raramente usa, de mover ação contra o governo quando este foge de sua responsabilidade na proteção do patrimônio público, o que parece ser o caso. Suponho que o MP esteja acompanhando o assunto, mas com qual empenho e agilidade?


Enfim, não sei qual será o nome do futuro bairro, se a coisa prosperar. Conversei com os vizinhos, com a presidente da Associação, estão preocupados porque a situação está seguindo adiante, e certamente sob a proteção de alguém. O último boato que ouvi é de que o governo não tirou os ocupantes da área porque ninguém pode ser despejado no período da pandemia. Ora, isso é um direito de quem mora numa área, não para quem está entrando nela agora. Duvido que exista um decreto permitindo invasões durante a pandemia. 


E a ação de despejo não é difícil. Afinal, não tem famílias morando na área, com crianças e gatos e cachorros, não tem banheiro nem água nem luz no local. Ficam lá alguns adultos e durante o dia, quando chega a noite vão para o local onde “não moram”. E mesmo que exista lá gente necessitada de terreno e casa, o despejo não precisa ser com a polícia. Serviria até de boa propaganda levar ao local os órgãos de assistência social para atender as reivindicações dos ocupantes e providenciar sua transferência para um local onde possam ficar em segurança. 


Fiquei cismando, esses dias, enquanto cuido da tosse das crianças, agravada pela imensa queimada que, na semana passada, consumiu boa parte da mata em regeneração no terreno em frente à invasão -este sim, dentro da desprotegida área de proteção. Pensei que talvez a imprensa possa ajudar. Quem sabe aparece um repórter interessado em ganhar o prêmio de um desses concursos que acontecem todo final de ano, com a melhor reportagem investigativa sobre o grave problema do deficit habitacional. Talvez esse intrépido repórter possa descobrir quem, afinal, é o dono daquele buraco e detém o poder de tampá-lo ou aprofundá-lo. 


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24 agosto 2017

caissa-me.com

mudei-me
com a inspiração
e o hálito
da musa ninfa deusa
mãe d'água
da poesia
do amor
que ao deus da guerra seduziu
e fez nascer novas artes e ciências

cantam omar pessoa borges
grita arrabal
tudo faz duchamp

eu morro e renasço
em seu colo de sonho

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caissa-me.com

27 dezembro 2012

Semedida

Intenso e um tanto estranho esse 2012, que gostei de encerrar com "Política Zero". Tenho lido a coleção de cronicas agora na forma de livro, tentado encontrar algo ali... e conseguindo, graças a Deus. Espero que mais gente encontre núcleos de densidade naqueles textos.
Não percebemos as mudanças, elas são sutis. Mas ao final de um tempo olho e vejo tudo mudado. Estranho e intenso ano, esse.
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De uma das crônicas do livro (se me perdoam a auto-citação):
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"A mudança sutil começa como uma mu­dança na própria sutileza: altera-se a medida de modo que o que sentíamos como leveza agora sentimos como peso e o que nem sen­tíamos –por ser etéreo- torna-se levemente sensível".

18 dezembro 2012

fiim

Fiz um livro, o nome dele é "Política Zero". É uma seleção das crônicas que publiquei em 2011 no jornal Página 20, intercaladas com outras mais antigas, dos blogs ou de velhos jornais. São coisas que venho pensando, nos últimos tempos, sobre política. Os textos antigos entram porque são insights, porque permanecem atuais, porque antecipam idéias que se firmariam no futuro ou, simplesmente, porque me agradam. 
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Diagramei, ilustrei com meus desenhos toscos, imprimi em computador e fiz cópias xerox das páginas. Minha mulher e minha filha vão costurando e colando. Eu mesmo saio às ruas vendendo a quem encontro. Minha sobrinha, meu sobrinho e os amigos prometeram organizar um sarau de lançamento no Casarão. Semana que vem, colocarei algumas dezenas de exemplares na Livraria Nobel. 
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Transcrevo o parágrafo final do texto de apresentação:


"O que espero com tal publicação, além de rios de dinheiro e fama mundial? Sinceramente, espero desencanar de vez da programação mental proporcionada por décadas de política, fechar essa conta em minha vida para poder inventar e descobrir coisas novas, outras formas de viver e pensar. De quebra, quero estimular outras pessoas dispostas a descolar-se das antigas plataformas. Mas fico contente se puder, ao menos, a cada crônica, proporcionar dois minutos de reflexão".

Compre, leia e dê de presente "Política Zero". 
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15 novembro 2012

mote


chá com porronca
madeira com pano
chamego com sono
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memória da água
gosto de língua
cheiro de cangote
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causo de como
dize que home
não diz te amo

13 novembro 2012

Antes e depois


Eu atravessei dois estágios diferentes no velho partido. A primeira foi antes de chegar ao poder, quando os comunistas estavam basicamente realizando uma revolução agrária. A única maneira de sobreviver e crescer era apelando ao povo, sobretudo aos camponeses, por apoio. Quando iam a uma vila, tinham de buscar água, varrer o chão, para mostrarem que eram um tipo diferente de partido.

Agora, eles não têm de pleitear apoio. A Constituição afirma que eles são o partido no poder, que você tem de seguir a sua liderança. Então, de servos, eles se tornaram os senhores do povo”.

A declaração (está na Folha online) é de Sidney Rittemberg, hoje com 92 anos, norte-americano admitido por Mao Tsé-tung no Partido Comunista Chinês em 1945.

Na China tudo é tão diferente...




19 outubro 2012

Idiomas

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Conversávamos sobre os antigos, suas histórias. Lembrei do que Raimundo Gomes me disse: “eu escovitei muito a vida do Padrinho Irineu, pra aprender de tudo”. Marina, mineira, perguntou o que é escovitar. É o mesmo que escacaviar, respondi acreanamente. E ela, ainda mais mineira: “ah, sei”. Com uma cara linda de quem sabia mesmo.
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18 outubro 2012

elipses

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Madrugada silenciosa no açude, ao céu estrelado.
Águas cálidas em meu peito, o Sete Estrelas sobre a fronte.
Quem me andava disperso, agora retoma o Oriente.
Ensino-me. Recito versos íntimos
deste catecismo poético que a Mãe escreve em seu corpo.
Água cura. Estrelas contam sabedorias.
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Jorrariam as palavras, líquidas e certas,
não fosse o silêncio a mais respeitosa reverência.
Acaricio cicatrizes de antigas guerras até que desapareçam
da memória da pele.
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Desde a terra, subo lentamente e já não me alcanço.
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25 setembro 2012

quem se astreve?

Eduardo Viveiros de Castro:
“Outros valores, além do frenesi de consumo”

Entrevista a Júlia Magalhães (Em racismoambiental.net.br)

Qual é sua percepção sobre a participação política do brasileiro?

Preferiria começar por uma desgeneralização: vejo a sociedade brasileira como profundamente dividida no que concerne à sua visão do país e do futuro. A ideia de que existe um Brasil, no sentido não-trivial das ideias de unidade e de brasilidade, parece-me uma ilusão politicamente conveniente (sobretudo para os dominantes) mas antropologicamente equivocada. Existem no mínimo dois, e, a meu ver, bem mais Brasis. O conceito geopolítico de Estado-nação unificado não é descritivo, mas prescritivo. Há fraturas profunda na sociedade brasileira. Há setores da população com uma vocação conservadora imensa; eles não integram necessariamente uma classe específica, embora as chamadas “classes médias”, ascendentes ou descendentes, estejam bem representadas ali. Grande parte da chamada sociedade brasileira — a maioria, infelizmente, temo — se sentiria muito satisfeita sob um regime autoritário, sobretudo se conduzido mediaticamente pela autoridade paternal de uma personalidade forte. Mas isso é uma daquelas coisas que a minoria libertária que existe no país, ou mesmo uma certa medioria “progressista”, prefere manter envolta em um silêncio embaraçado. Repete-se a todo e a qualquer propósito que o povo brasileiro é democrático, “cordial”, amante da liberdade, da igualdade e da fraternidade – o que me parece uma ilusão muito perigosa. É assim que vejo a “participação política do povo brasileiro”: fraturada, dividida, polarizada, uma polarização que não está necessariamente em harmonia com as divisões politicas oficiais (partidos etc.). O Brasil permanece uma sociedade visceralmente escravocrata, renitentemente racista, e moralmente covarde. Enquanto não acertarmos contas com esse inconsciente, não iremos “para a frente”. Em outros momentos, é claro, soluços insurreicionais esporádicos, e uma certa indiferença pragmática em relação aos poderes constituídos, que se testemunha sobretudo entre os mais pobres, ou os mais alheios ao teatro montado pelo andar de cima, inspiram modestas utopias e moderados otimismos por parte daqueles que a historia colocou na confortável posição de “pensar o Brasil”. Nós, em suma.

O que é preciso para mudar isso?

Falar, resistir, insistir, olhar por cima do imediato – e, evidentemente, educar. Mas não “educar o povo”, como se a elite fosse muito educada e devêssemos (e pudéssemos) trazer o povo para um nível superior; mas sim criar as condições para que o povo se eduque e acabe educando a elite, quem sabe até livrando-se dela. A paisagem educacional do Brasil de hoje é a de uma terra devastada, um deserto. E não vejo nenhuma iniciativa consistente para tentar cultivar esse deserto. Pelo contrário: chego a ter pesadelos conspiratórios de que não interessa ao projeto de poder em curso modificar realmente a paisagem educacional do Brasil: domesticar a força de trabalho, se é que é isso mesmo que se está sinceramente tentando (ou planejando), não é de forma alguma a mesma coisa que educar.

Isto é só um pesadelo, decerto: não é assim, não pode ser assim, espero que não seja assim. Mas fato é que não se vê uma iniciativa de modificar a situação. Vê-se é a inauguração bombástica de dezenas de universidades sem a mínima infra-estrutura física (para não falar de boas bibliotecas, luxo quase impensável no Brasil), enquanto o ensino fundamental e médio permanecem grotescamente inadequados, com seus professores recebendo uma miséria, com as greves de docentes universitários reprimidas como se eles fossem bandidos. A “falta” de instrução — que é uma forma muito particular e perversa de instrução imposta de cima para baixo — é talvez o principal fator responsável pelo conservadorismo reacionário de boa parte da sociedade brasileira. Em suma, é urgente uma reforma radical na educação brasileira.

“A floresta e a escola”, sonhava Oswald de Andrade. Infelizmente, parece que deixaremos de ter uma e ainda não teremos a outra. Pois sem escola, aí é que não sobrará floresta mesmo.

Por onde começaria a reforma na educação?

Começaria por baixo, é lógico, no ensino fundamental – que continua entregue às moscas. O ensino público teria de ter uma política unificada, voltada para uma – com perdão da expressão – “revolução cultural”. Não adianta redistribuir renda (ou melhor, aumentar a quantidade de migalhas que caem da mesa cada vez mais farta dos ricos) apenas para comprar televisão e ficar vendo o BBB e porcarias do mesmo quilate, se não redistribuímos cultura, educação, ciência e sabedoria; se não damos ao povo condições de criar cultura em lugar de apenas consumir aquela produzida “para” ele. Está havendo uma melhora do nível de vida dos mais pobres, e talvez também da velha classe média – melhora que vai durar o tempo que a China continuar comprando do Brasil e não tiver acabado de comprar a África. Apesar dessa melhora no chamado nível de vida, não vejo melhora na qualidade efetiva de vida, da vida cultural ou espiritual, se me permitem a palavra arcaica. Ao contrário. Mas será que é preciso mesmo destruir as forças vivas, naturais e culturais, do povo, ou melhor, dos povos brasileiros para construir uma sociedade economicamente mais justa? Duvido.

Nesse cenário, quais os temas capazes de mobilizar a sociedade brasileira, hoje?

Vejo a “sociedade brasileira” imantada, pelo menos no plano de sua auto-representação normativa por via da midia, por um ufanismo oco, um orgulho besta, como se o mundo (desta vez, enfim) se curvasse ao Brasil. Copa, Olimpíadas… Não vejo mobilização sobre temas urgentíssimos, como esses da educação e da redefinição de nossa relação com a terra, isto é, com aquilo que está por baixo do território. Natureza e Cultura, em suma, que hoje não apenas se acham mediadas, mediatizadas pelo Mercado, mas mediocrizadas por ele. O Estado se aliou ao Mercado, contra a Natureza e contra a Cultura.

Esses temas ainda não mobilizam?

Existe alguma preocupação da opinião pública com a questão ambiental, um pouco maior do que com a educacional – o que não deixa de ser para se lamentar, pois as duas vão juntas. Mas tudo me parece “too little, too late”: muito pouco, e muito tarde. Está demorando tempo demais para se espalhar a consciência ambiental, o sentido de urgência absoluta que a situação do planeta impõe a todos nós. Essa inércia se traduz em pouca pressão sobre os governos, as corporações, as empresas – estas investindo cada vez mais na historia da carochinha do “capitalismo verde”. E pouca pressão sobre a grande imprensa, suspeitamente lacônica, distraída e incompetente quando se trata da questão das mudanças climáticas.

Não se vê a sociedade realmente mobilizada, por exemplo, por Belo Monte, uma monstruosidade provada e comprovada, mas que tem o apoio desinformado (é o que se infere) de porções significativas da população do Sul e Sudeste, para onde irá boa parte da energia que não for vendida a preço de banana paras as multinacionais do alumínio fazerem latinha de sakê, no baixo Amazonas, para o mercado asiático. Faz falta um discurso politico mais agressivo em relação à questão ambiental. É preciso sobretudo falar aos povos, chamar a atenção de que saneamento básico é um problema ambiental, dengue é problema ambiental, lixão é problema ambiental. Não é possível separar desmatamento de dengue e de saneamento básico. É preciso convencer a população mais pobre de que melhorar as condições ambientais é garantir as condições de existência das pessoas. Mas a esquerda tradicional, como se está comprovando, mostra-se completamente despreparada para articular um discurso sobre a questão ambiental. Quando suas cabeças mais pensantes falam, tem-se a sensação de que estão apenas “correndo atrás”, tentando desajeitadamente capturar e reduzir ao já-conhecido um tema novo, um problema muito real que não estava em seu DNA ideológico e filosófico. Isso quando ela, a esquerda, não se alinha com o insustentável projeto ecocida do capitalismo, revelando assim sua comum origem com este último, lá nas brumas e trevas da metafísica antropocêntrica do Cristianismo.

Enquanto acharmos que melhorar a vida das pessoas é dar-lhes mais dinheiro para comprarem uma televisão, em vez de melhorar o saneamento, o abastecimento de água, a saúde e a educação fundamental, não vai dar. Você ouve o governo falando que a solução é consumir mais, mas não vê qualquer ênfase nesses aspectos literalmente fundamentais da vida humana nas condições dominantes no presente século.

Não se diga, por suposto, que os mais favorecidos pensem melhor e vejam mais longe que os mais pobres. Nada mais idiota do que esses Land Rovers que a gente vê a torto e a direito em São Paulo ou no Rio, rodando com plásticos do Greenpeace e slogans “ecológicos” colados nos pára-brisas. Gente refestelada nessas banheiras 4×4 que atravancam as ruas e bebem o venenoso óleo diesel, gente que acha que “contato com a natureza” é fazer rally no Pantanal…

É uma situação difícil: falta instrução básica, falta compromisso da midia, falta agressividade política no tratar da questão do ambiente — isso quando se acha que há uma questão ambiental, o que está longe de ser o caso de nossos atuais Responsáveis. Estes mostram, ao contrário e por exemplo, preocupação em formar jovens que dirijam com segurança, e assim ao mesmo tempo mantêm sua aposta firme no futuro do transporte por carro individual numa cidade como São Paulo, em que não cabe nem mais uma agulha. Um governo que não se cansa de arrotar grandeza sobre a quantidade de veiculos produzidos por ano. É um absurdo utilizar os números da produção de veiculos como indicador de prosperidade econômica. Isso é uma proposta podre, uma visão tacanha, um projeto burro de país.

Você está dizendo que muitos apelos ao consumo vêm do próprio governo. Mas também há um apelo muito grande que vem do mercado. Como você avalia isso?

O Brasil é um país capitalista periférico. O capitalismo industrial-financeiro é considerado por quase todo mundo hoje como uma evidência necessária, o modo incontornável de um sistema social sobreviver no mundo de hoje. Entendo, ao contrário de alguns companheiros de viagem, que o capitalismo sustentável é uma contradição em termos, e que se nossa presente forma de vida econômica é realmente necessária, então logo nossa forma de vida biológica, isto é, a espécie humana, vai-se mostrar desnecessária. A Terra vai favorecer outras alternativas.

A ideia de crescimento negativo, ou de objeção ao crescimento, a ética da suficiência são contraditórias com a lógica do capital. O capitalismo depende do crescimento contínuo. A ideia manutenção de um determinado patamar de equilíbrio na relação de troca energética com a natureza não cabe na matriz econômica do capitalismo.

Esse impasse, queiramos ou não, vai ser “solucionado” pelas condições termodinâmicas do planeta em um período muito mais curto do que imaginávamos. As pessoas fingem não saber o que está acontecendo, preferem não pensar no assunto, mas o fato é que temos que nos preparar para o pior. E o Brasil, ao contrário, está sempre se preparando para o melhor. O otimismo nacional diante de uma situação planetária para lá de inquietante é extremamente perigoso, e a aposta de que vamos nos dar bem dentro do capitalismo é algo ingênua, se é que não é, quem sabe, desesperada.. O Brasil continua sendo um país periférico, uma plantation relativamente high tech que abastece de produtos primários o capitalismo central. Vivemos de exportar nossa terra e nossa água em forma de soja, açúcar, carne, para os países industrializados – e são eles que dão as cartas, controlam o mercado. Estamos bem nesse momento, mas de forma alguma em posição de controlar a economia mundial. Se mudar um pouco para um lado ou para o outro, o Brasil pode simplesmente perder esse lugar à janela onde está sentado hoje. Sem falar, é claro, no fato de que estamos vivendo uma crise econômica mundial que se tornou explosiva em 2008 e está longe de acabar; ninguém sabe onde ela vai parar. O Brasil, nesse momento da crise, está em uma espécie de contrafluxo do tsunami, mas quando a onda quebrar vai molhar muita gente. Essas coisas têm de ser ditas.

E como você avalia a relação dessa realidade macropolítica, macroeconômica, com as realidades do Brasil rural, dos ribeirinhos, dos indígenas?

O projeto de Brasil que tem a presente coalizão governamental sob o comando do PT é um no qual ribeirinhos, índios, camponeses, quilombolas são vistos como gente atrasada, retardados socioculturais que devem ser conduzidos para um outro estágio. Isso é uma concepção tragicamente equivocada. O PT é visceralmente paulista, seu projeto é uma “paulistanização” do Brasil. Transformar o interior do país numa fantasia country: muita festa do peão boiadeiro, muito carro de tração nas quatro, muita música sertaneja, bota, chapéu, rodeio, boi, eucalipto, gaúcho. E do outro lado cidades gigantescas e impossíveis como São Paulo. O PT vê a Amazônia brasileira como um lugar a se civilizar, a se domesticar, a se rentabilizar, a se capitalizar. Esse é o velho bandeirantismo que tomou conta de vez do projeto nacional, em uma continuidade lamentável entre as geopolítica da ditadura e a do governo atual. Mudaram as condições políticas formais, mas a imagem do que é uma civilização brasileira, do que é uma vida que valha a pena ser vivida, do que é uma sociedade que esteja em sintonia consigo mesma, é muito, muito parecida. Estamos vendo hoje, numa ironia bem dialética, o governo comandado por uma pessoa perseguida e torturada pela ditadura realizando um projeto de sociedade encampado e implementado por essa mesma ditadura: destruição da Amazônia, mecanização, transgenização e agrotoxificação da “lavoura”, migração induzida para as cidades. Por trás de tudo, uma certa ideia de Brasil que o vê, no início do século XXI, como se ele devesse ser o que os Estados Unidos foram no século XX. A imagem que o Brasil tem de si mesmo é, sob vários aspectos, aquela projetada pelos Estados Unidos nos filmes de Hollywood dos anos 50 – muito carro, muita autoestrada, muita geladeira, muita televisão, todo mundo feliz. Quem pagava por tudo isso éramos, entre outros, nós. (Quem nos pagará, agora? A África, mais uma vez? O Haiti? A Bolivia?). Isso sem falarmos na massa de infelicidade bruta gerada por esse modo de vida para seus beneficiários mesmo.

É isso que vejo, uma tristeza: cinco séculos de abominação continuam aí. Sarney é um capitão hereditário, como os que vieram de Portugal para saquear e devastar a terra dos índios. O nosso governo dito de esquerda governa com a permissão da oligarquia e dos jagunços destas para governar, ou seja, pode fazer várias coisas desde que a parte do leão continue com ela. Toda vez que o governo ensaia alguma medida que ameace isso,o congresso, eleito sabe-se como, breca, a imprensa derruba, o PMDB sabota.

Há uma série de impasses para os quais não vejo saída, não vejo como sair por dentro do jogo político tradicional, com as presentes regras – vejo mais como sendo possível pelo lado do movimento social. Este está desmobilizado; se não está, o que mais se ouve é que ele está. Mas se não for por via do movimento social, vamos continuar vivendo nesse paraíso subjuntivo, aquele em que um dia tudo vai ficar ótimo. O Brasil é um país dominado politicamente por grandes proprietários e grandes empreiteiros, que não só nunca fez sua reforma agrária, como onde se diz que já não é mais preciso fazê-la.

Você acha que as coisas vão começar a mudar quando chegarem a um limite?

A crise econômica mundial vai provavelmente pegar o Brasil no contrapé em algum momento próximo. Mas o que vai acontecer com certeza é que o mundo todo vai passar por uma transição ecológica, climática e demográfica muito intensa nos próximos 50 anos, com epidemias, fomes, secas, desastres, guerras, invasões. Estamos vendo as condições climáticas mudarem muito mais aceleradamente do que imaginávamos, e é grande a possibilidade de catástrofes, de quebras de safras, de crises de alimentos. Por ora, hoje, isso está até beneficiando o Brasil. Mas um dia a conta vai chegar. Os climatologistas, os geofísicos, os biólogos e os ecólogos estão profundamente pessimistas quanto ao ritmo, as causas e as consequências da transformação das condições ambientais em que se desenvolve hoje a vida da espécie. Porque haveria eu de estar otimista?

Penso que é preciso insistir que é possível ser feliz sem se deixar hipnotizar por esse frenesi de consumo que a mídia nos impõe. Não sou contra o crescimento econômico no Brasil, não sou idiota a ponto de achar que tudo se resolveria distribuindo a grana do Eike Batista entre os camponeses do semi-árido nordestino ou cortando os subsídios aos clãs político-mafiosos que governam o país. Não que isso não fosse uma boa ideia. Mas sou contra, isso sim, o crescimento da “economia” mundial, e sou a favor de uma redistribuição das taxas de crescimento. Sou também obviamente a favor de que todos possam comprar uma geladeira, e, por que não, uma televisão — mas sou a favor de que isso envolva a máxima implementação das tecnologias solar e eólica. E teria imenso prazer em parar de andar de carro se pudéssemos trocar esse meio absurdo de transporte por soluções mais inteligentes.

E como você vê o jovem nesse contexto?

É muito difícil falar de uma geração à qual não se pertence. Na década de 60 tínhamos ideias confusas mas ideais claros, achávamos que podíamos mudar o mundo, e sabíamos que tipo de mundo queríamos. Acho que, no geral, os horizontes utópicos se retraíram enormemente.

Algum movimento recente no Brasil ou no mundo chamou sua atenção?

No Brasil, a aceleração da difusão do que podemos chamar de cultura agro-sulista, tanto à direita como à esquerda, pelo interior do país. Vejo isso como a consumação do projeto de branqueamento da nacionalidade, esse modo muito peculiar da elite dominante acertar suas contas com o próprio passado (passado?) escravista.

Outra mudança importante foi a consolidação de uma cultura popular ligada ao movimento evangélico. O evangelismo das igrejas universais do reino de Deus e congêneres está evidentemente associado à religião do consumo, aliás.

E como você vê o surgimento das redes sociais, nesse contexto?

Isso é uma das poucas coisas com que estou bastante otimista: o relativo e progressivo enfraquecimento do controle total das mídias por cinco ou seis grandes grupos. Esse enfraquecimento está acontecendo com a proliferação das redes sociais, que são a grande novidade na sociedade brasileira e que estão contribuindo para fazer circular um tipo de informação que não tinha trânsito na imprensa oficial, e permitindo formas de mobilização antes impossíveis. Há movimentos inteiramente produzidos dentro das redes sociais, como a marcha contra a homofobia, o churrasco da “gente diferenciada” em Higienópolis, os vários movimentos contra Belo Monte, a mobilização pelas florestas. As redes são nossa saída de emergência para a aliança mortal entre governo e mídia. São um fator de desestabilização, no melhor sentido da palavra, do arranjo de poder dominante. Se alguma grande mudança no cenário político brasileiro vier a acontecer, creio que vai passar por essa mobilização das redes.

Por isso se intensificam as tentativas de controlar essas redes por parte dos poderes constituídos – isso no mundo inteiro. Pelo controle ao acesso ou por instrumentos vergonhosos, como o “projeto” brasileiro de banda larga, que começa pelo reconhecimento de que o serviço será de baixa qualidade. Uma decisão tecnolotica e política antidemocrática e antipopular, equivalente ao que se faz com a educação: impedir que a população tenha acesso pleno à circulação cultural. Parece mesmo, às vezes, que há uma conspiração para impedir que os brasileiros tenham uma educação boa e acesso de qualidade à internet. Essas coisas vão juntas e têm o mesmo efeito, que é o aumento da inteligência social, algo que, pelo jeito, é preciso controlar com muito cuidado.

Você imagina um novo modelo político?

Um amigo que trabalhava no ministério do Meio Ambiente na época de Marina Silva me criticava dizendo que essa minha conversa de ficar longe do Estado era romântica e absurda, que tínhamos que tomar o poder, sim. Eu respondia que, se tínhamos de tomar o poder, era preciso saber manter o poder depois, e era aí que a coisa pegava. Não tenho um desenho político para o Brasil, não tenho a pretensão de saber o que é melhor para o povo brasileiro em geral e como um todo. Só posso externar minhas preocupações e indignações, e palpitar, de verdade, apenas ali onde me sinto seguro.

Penso, de qualquer forma, que se deve insistir na ideia de que o Brasil tem – ou, a essa altura, teria – as condições ecológicas, geográficas, culturais de desenvolver um novo estilo de civilização, um que não seja uma cópia empobrecida do modelo americano e norte-europeu. Poderíamos começar a experimentar, timidamente que fosse, algum tipo de alternativa aos paradigmas tecno-econômicos desenvolvidos na Europa moderna. Mas imagino que, se algum país vai acabar fazendo isso no mundo, será a China. Verdade que os chineses têm 5000 anos de historia cultural praticamente continua, e o que nós temos a oferecer são apenas 500 anos de dominação europeia e uma triste historia de etnocídio, deliberado ou não. Mesmo assim, é indesculpável a falta de inventividade da sociedade brasileira, pelo menos das suas elite políticas e intelectuais, que perderam várias ocasiões de se inspirarem nas soluções socioculturais que os povos brasileiros historicamente ofereceram, e de assim articular as condições de uma civilização brasileira minimamente diferente dos comerciais de TV. Temos de mudar completamente, para começar, a relação secularmente predatória da sociedade nacional com a natureza, com a base físico-biológica da própria nacionalidade. E está na hora de iniciarmos uma relação nova com o consumo, menos ansiosa e mais realista diante da situação de crise atual. A felicidade tem muitos caminhos.

http://www.outraspalavras.net/2012/09/20/outros-valores-alem-do-frenesi-de-consumo/.