18 fevereiro 2010
08 fevereiro 2010
Anzol no beiço
(quero só ver o que a Veriana vai dizer...)
31 janeiro 2010
Óleo no cérebro
1.
Os poucos, porém fiéis e atentos leitores deste blog não me permitem desatenções. A pretexto, pois, de explicar os termos da despretensiosa e –reconheço- descontextualizada mensagem anterior, pretendo passear por outros tempos e espaços na tentativa de espantar uma restrição mental que resulta em textos de baixa qualidade, além de aproveitar a ocasião para reavivar o gosto por uma boa conversa e, de quebra, quem sabe, reverter a queda evidente e acentuada de minha popularidade, embora com percentuais ainda não revelados pelos institutos de pesquisa.
2.
Começo desembarcando em Brasília depois de um torturante vôo noturno, carregando minha mochila e meu cansaço até o apartamento em que o Senado abriga minha líder Marina Silva. Encontrei-a, mal iniciado o dia, empenhada em promover a paz e a convivência harmônica entre diversos eus, nós, eles e outros que navegam nas embarcações políticas de sua frota cada vez mais numerosa. Após algumas providências e conversas pacificadoras, atendeu-me com café e explicação: “uma coisa que desenferrujou na minha cabeça foi a política”. Apelei, pois, para sua proverbial caridade cristã: “então, por favor, me arranja um pouco de óleo porque na minha cabeça a política continua rangendo”. Ainda bem que Marina é tranqüila e lúcida o suficiente para recusar uma boa parte de meus palpites, se fosse segui-los brigaria com meio mundo. (Sei que sou um bom assessor pela qualidade daqueles a quem assessoro.) Deixo a coerência para quem dela precisa e posso promover foguetórios verbais na fronteira da liberdade com a irresponsabilidade. Mas para poucos e íntimos, é claro, que não sou de escândalos.
3.
Uso com parcimônia cada vez maior esses pronomes coletivos, nós e eles. Depois de tanto tempo com a impressão de um “eu” tão próximo, reconhecível e confiável, percebo cada vez mais claramente sua impermanência, fragilidade e estranheza. Como definir, então, fronteiras de identidade e alteridade para o que quer se seja, abraçar ou empurrar, aliar-se ou opor-se? Resta-me o recurso das aspas, gasto e parco, para mostrar minha consciência de que essas separações existem quase como fantasmas ou talvez as proverbiais bruxas em que no creo, pero las hay. Afinal, parece que “nós” guarani-kayowá não estamos muito contentes com “nós” fazendeiros no Mato Grosso. E o que digo “eu”? Crianças, deixem disso e vamos todos rezar? Guerra e paz, amor e ódio... não fico satisfeito com dualidades. Mergulho mil vezes na multiplicidade e, para não me afogar nela, levo comigo a sentença de Heráclito, que coloquei na proteção de tela do meu computador: Tudo é Um. Mas às vezes “eles” se esquecemos.
4.
Ainda tenho esperanças de que seja possível formar e manter comunidades, de resto uma idéia muito interessante. Mas como fazer isso? Durante duas décadas, antes de sermos assumidos pelo poder de Estado, percorremos rios e varadouros para dialogar com as comunidades da floresta na linguagem dos projetos. “Cultura de projeto” foi a expressão que usei para designar um conjunto de relações que nasceram nas ONGs e que depois “nós” levamos para o Estado. O projeto tem um roteiro: objetivos, justificativa, estratégia, cronograma etc. etc. e, no final, o mais importante: orçamento. Costumo brincar dizendo que o projeto tem, oculto, um fundamento militar; trata-se de um “projétil”, que sempre tem um “público-alvo” a ser “atingido”. Obviamente, não estou condenando os sonhos, a projeção do futuro, o planejamento, nada disso, embora também não morra de amores por todos esses disfarces do desejo de controle associado à idéia de um tempo linear, por mais criativos que sejam, nem esteja conformado com uma condição humana –momentânea, coisa de poucos milênios- em que se desenvolveu o vício de projetar o pensamento para “passado” ou “futuro” ou qualquer lugar distante do agora, deslocando assim o estar para fora do ser. De todo modo, como às vezes faço guerra ou amor e eventualmente digo “nós” e “eles”, também ainda faço projetos. Não sou, como já reconheci, um exemplo de coerência, mas é preciso sobreviver e, para isso, fazer uso de coisas muito próximas da vilania, como estratégia, objetivos, planos e –argh!- política. (Marina, vou mesmo precisar daquele óleo no cérebro.)
5.
De todo modo, fiz aqui –e mantenho- uma rápida constatação de que no enfrentamento de projetos, estamos, quem quer que sejamos “nós”, perdendo para aqueles, quem quer que sejam “eles”, que projetam a devastação. Bem lembrado o caso do Casarão. Ali, ao lado do velho avarandado de madeira, próximo ao quartel da antiga Guarda Territorial, em frente à pracinha do coreto, onde ficam a Escola Normal e o Hotel Chuí, estão querendo construir um monstro brega com enormes arcos modernosos, mais uma ofensa ao patrimônio histórico, à memória, à paisagem, à identidade e até à sensibilidade. “Eles”, que projetam essa agressão, são os mesmos que destruíram boa parte do patrimônio arquitetônico erguido entre 1940 e 1970 para instalar torres de vidro, arcos de concreto, fachadas de metal, quiosques de fibra e um amplo arsenal de breguices. E “nós”, o que fazemos? Ficamos vendo o monge Zen eliminar o problema com sua espada jurídica, dizendo que não pode “engessar” a cidade e que o patrimônio antigo tem que conviver com o “moderno, vivo e vibrante”? E esse é só um dos casos que não conseguimos nem empatar, posso citar uma dezena e deixar outra guardada no bisaco.
6.
Com essas pernas, como dar passos sustentáveis? Antigamente, antes da cultura de projeto, dizíamos “auto-sustentável” (lembram-se, companheiros?), porque achávamos que ninguém ia nos dar de comer e não imaginávamos quão bom era o preço pelo qual venderíamos nossa autonomia. Agora ninguém trabalha de graça, a definição é pré ou pós-pago. Marina vive falando (sempre ela!) nos tais “núcleos vivos da sociedade”, parece que existem por aí alguns grupos, pessoas e até organizações fazendo coisas interessantes e auto-sustentáveis. Tenho insistido na necessidade de criar moedas paralelas, de circulação local, capazes de facilitar as trocas em sub-sistemas econômicos de âmbito comunitário ou regional, sustentando o trabalho e a arte de gentes variadas. Existem experiências interessantes no mundo e até nesses novos paraísos consumistas como Índia e Brasil. Mas será que a moda pega, será que chega aqui?
7.
Por enquanto, continuo achando sedutora a visão daquele poético anônimo que imagina a extinção do homo sacer (aprendo mais essa) e um planeta sem “nós” dando belas piruetas ao redor do sol. E tem gente que diz que eu ando apocalíptico. Ora, apocalíptico é o Haiti. Eu estou meio enferrujado, só isso.
15 janeiro 2010
Dois problemas
Retomar a iniciativa. "Eles" estão inventando e fazendo coisas para gastar o dinheiro que ganham e ganhar o que gastam. "Nós" tentamos empatar. Precisamos fazer e inventar coisas para ganhar tempo e espaço.
2.
Auto-financiamento. A cultura de projeto acabou com nossa autonomia. Como podemos nos bancar? Sustentável é o passo que damos com nossas pernas etc. etc.
Sem tremer
03 janeiro 2010
Depois, o mundo
Preciso vencer uma impaciência. É meio complicado de explicar: é impaciência com o alcance das palavras, idéias, conceitos, planos, estratégias, tudo que é tentativa de enquadrar a redondeza da terra. Passei de todos os conceitos e não sei como me comunicar sem eles. Não dá pra dizer algo tipo assim, entende? A gente tem que ser simples e claro. Mas as palavras estão gastas e opacas. Quer ver? Olha só o Meio Ambiente. É algo que foi inventado há pouco tempo, é novidade pra tanta gente e já nem diz muita coisa. Antes não existia meio ambiente. Existia a natureza: os rios, as árvores, os animais e nós, humanos. Existia o mundo e sua vastidão a ser percorrida. Existia o trabalho com a terra e seus recursos. O meio ambiente só passou a existir quando nós, humanos, nos afastamos da natureza. Quando o mundo foi percorrido tantas vezes que ficou pequeno. Quando os recursos da terra, sob o ritmo do trabalho industrial, começaram a dar sinais de esgotamento. Formou-se, então, a idéia do que estávamos perdendo. A natureza foi se acabando, ficou só o meio ambiente... e a minha impaciência, pois com isso não dá pra fazer ou refazer um mundo. Bem, pelo menos sei por onde começar: vencer essa impaciência.
Encontro
31 dezembro 2009
Janeiro por inteiro
Marina Silva
EM BREVE entraremos em janeiro, mês que recebeu esse nome em homenagem a Janus, que na mitologia romana é o deus dos inícios. Representado por duas faces em oposição, olha também para o que é findo, para o passado. É o encarregado de abrir a porta para o novo, mas lembrando sempre que as portas têm simultaneamente dois lados: a entrada é ao mesmo tempo a saída.
Sob a metáfora de Janus entramos em 2010, um ano como poucas vezes se viu na política brasileira, tantos são os significados presentes, de passado e de futuro. Alguns dos protagonistas desse ano incomum tentam o impossível. No cenário meticulosamente engendrado pelas duas principais candidaturas oficiosas, de situação e de oposição, Janus está subtraído de uma de suas caras, condenado a ter recortada de sua substância divina a metade da saída, do novo.
A intenção parece ser apenas medir os dois passados, mesmo em prejuízo do futuro que nos une.
Quer-se passar pela porta sem abri-la. Assim, o Janus mutilado da política brasileira fica incompleto para exercer sua função de integrar num mesmo sistema o status quo e a mudança, o ido e o porvir. Em lugar da refinada reflexão mitológica sobre o momento de passagem, entra a soberba imposição de uma queda de braço entre autoavaliações hiperbólicas, a competição entre quem fez mais e melhor aos próprios olhos, como se essa satisfação narcísica fosse um fim em si mesma, acima de tudo, inclusive do próprio país.
A isso se reduziu a política? Perdida sua capacidade de antecipar o futuro, é apenas uma contabilidade forçosamente distorcida entre projetos publicitários de poder, onde o enaltecer-se às vezes se sobrepõe ao reconhecimento do continuum que nos trouxe até aqui e das alternativas para seguir adiante.
O Brasil não pode aceitar esse jogo reducionista e vaidoso, preocupado apenas em medir o passado, sem instrumentos que permitam projetá-lo para o futuro e fazer escolhas. Jogo no qual há que se adotar um lado ou outro, de forma maniqueísta, como se fossem depositários excludentes de todas as virtudes. Saindo da mitologia romana para o ensinamento bíblico do livro de "Gênesis", de tanto olhar para trás podemos nos condenar a virar estátua de sal, como no triste episódio da mulher de Ló.
É preocupante a tentativa de subtrair dos cidadãos a autonomia para fazer suas escolhas, porque o que lhes está sendo apresentado não é a informação completa e necessária para assumir a plena responsabilidade pela decisão tomada. O que podemos desejar para 2010 é, no mínimo, que Deus nos ajude a ultrapassar o portal do futuro com nossos próprios pés.
18 dezembro 2009
No clima
Estive em Brasília em outubro e fiquei surpreso ao notar que Marina, embora falasse da importância da Conferência de Copenhague, não parecia estar ansiosa com os resultados. Perguntei a respeito e ela deu a entender que o resultado real era a mobilização e o esclarecimento da população e que isso já estava ocorrendo, independente das posições oficiais dos governos. Hoje entendi isso com mais clareza ao ler o artigo de Saleemul Huq, que publico agora, no momento em que Obama, Lula e outros "líderes" iniciam mais uma reunião de emergência para tentar chegar, nos últimos momentos da Conferência, a um acordo que não salve o mundo mas ao menos as aparências.
O dia que tudo mudou em Copenhague
Discuti com os que negam a mudança climática e têm fortes vínculos com indústrias poluentes, e que nunca estiveram nas aldeias e comunidades vulneráveis, onde a mudança climática já mostra seus impactos. Se o fizessem, notariam o dano que sua ideologia causa nas pessoas que menos contribuíram com esta ameaça mundial. E agora, em dezembro de 2009, em Copenhague, creio que chegamos a um ponto de inflexão. Copenhague será lembrada nos próximos anos. Não pelo que ocorrer hoje, quando os líderes mundiais encerrarem a 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP-15), mas pelo que ocorreu no sábado passado.
Naquele dia, gente dos mais diversos estilos de vida de todo o mundo assumiu a iniciativa que deveria ser ostentada pelos que se dizem nossos líderes. Além das palavras que estes presidentes e primeiros-ministros decidirem incluir em um “protocolo” ou “acordo”, é o povo do mundo que tem de escrever no muro. Os líderes que decidirem ler essas palavras nos farão avançar. Aqueles que as ignorarem serão arrastados pela maré da história. O dia 12 deste mês assinala o momento em que grande parte do mundo se levantou para executar uma mudança verdadeiramente global. Haverá retrocessos (como um acordo medíocre esta semana), mas a maré já se movimentou. E não pode voltar atrás.
Mais além do que conseguirmos em Copenhague – e sou otimista, apesar das manobras políticas – estamos em um caminho novo e inexorável. Os líderes que compreenderem isso podem proceder dos lugares mais inesperados. Vejamos, por exemplo, o presidente Mohammad Nasheed, da diminuta Maldivas.
Em poucos meses voltarei a Bangladesh para combater a mudança climática real, para opor-me às más (ou inadequadas) políticas que a abordam. Minha ambição para os próximos anos é ajudar a população de um dos países mais pobres e vulneráveis – e, entretanto, mais resiliente e inovadora – para que deixe de ser o emblema mundial de vulnerabilidade e passe a ser reconhecido como, talvez, o que melhor se adapta.
Volto à minha pátria para criar um novo Centro Internacional para a Mudança Climática e o Desenvolvimento, no qual aspiramos aprofundar a capacidade de governos, organizações da sociedade civil, pesquisadores, acadêmicos, jornalistas e muitos outros atores das nações em desenvolvimento para responder aos desafios que a mudança climática apresenta. O novo centro oferecerá capacitação sobre como sobreviver (e inclusive prosperar) em um mundo aquecido. Focará principalmente na adaptação à mudança climática nas nações menos adiantadas, mas não se deterá nisso.
Na verdade, planejamos criar instrumentos para que os países industrializados possam enfrentar impactos climáticos adversos. Paradoxalmente, o mundo rico que causou este problema não planejou em detalhe com adaptar-se a ele. Volto à frente de combate à mudança climática, onde a luta real já está em marcha. Vou sabendo que milhões de pessoas de todo o mundo compartilham minhas esperanças e meu otimismo quanto a que a humanidade pode unir-se para enfrentar o desafio que pode determinar nossa vida sobre a Terra.
* Saleemul Huq é membro do Instituto Internacional para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento e autor principal dos informes do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climática (IPCC), ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 2007.
Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.
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