14 setembro 2009

Lembrança do Barão

Interrompo meu silêncio –que já completou mês e parece estar no fim- para dizer “obrigado e até um dia” ao professor Geraldo Mesquita, que despediu-se deste mundo na sexta-feira, dia 11.

Não vivi o dia-a-dia do Acre nos anos em que o “Barão” foi governador, entre 1974 e 1978. Passei esse tempo em Brasília, aprendendo a política na escola do movimento estudantil contra a ditadura. Mas já o conhecia da infância e sabia que tinha sido companheiro de meu pai nos jornalismo das décadas de 40 e 50. Comentava-se, à meia-voz, que tinha sido comunista na juventude e que, mesmo depois, quando já tinha sido assimilado pela Arena de Guiomard Santos e dos militares, mantinha amizades com a esquerda. Sua nomeação como governador, portanto, só se explicava por uma tendência à chamada abertura, a “distensão lenta e gradual” de Geisel e Golbery.

No Acre, fiquei sabendo depois, foi essencial para retardar a devastação que se iniciara no período anterior. Pra quem não lembra, não é demais repetir: entre 1970 e 1974, um terço do território acreano foi comprado por sulistas, alguns para instalar fazendas de gado, outros para especulação imobiliária. Élson Martins costuma dizer que havia cheiro de pólvora no ar, naqueles tempos.

Mesquita vinha de um Acre antigo, em que os veteranos que haviam guerreado ao lado de Plácido de Castro ainda eram vivos e ativos na vida pública. Na juventude, leu escondido, de madrugada e à luz de velas, o livro proibido de Genesco de Castro, irmão de Plácido. Permaneceu a vida toda com um forte sentimento regionalista e não se iludiu com promessas de modernização. Acreditava que o verdadeiro progresso viria de uma forte economia rural baseada na agricultura familiar.

Em seu governo, criou uma extensa rede de serviços e órgão públicos destinados a esse desenvolvimento rural. Retirou o apoio estatal aos fazendeiros nos conflitos pela posse da terra, procurou evitar que a polícia fosse usada para reprimir empates de seringueiros, criou canais de negociação com os sindicatos e a Igreja, promoveu a instalação de uma Ajudância da Funai para defender os índios, até apoiou discretamente a resistência que se articulava no jornal O Varadouro, francamente esquerdista. Enfim, segurou a barra.

Durante anos, encontrei-o semanalmente, nas manhãs de sábado, quando levava ao Zé Leite os textos da coluna “Sempre aos Domingos” que assinava no jornal O Rio Branco. Conversa descontraída e cheia de inteligência, como só aqueles velhos sabiam ter. Eu, aprendiz, aprendia. Como filho do Vieira, era incluído na roda com privilégios, como se fosse mais um daqueles amigos da juventude, que tinham farreado nas imediações da Rua Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro, onde se originou o histórico apelido.

E tinha mais história por vir. Nas primeiras eleições diretas para governador, a dissidência aberta por Mesquita foi fundamental para derrotar o PDS de Kalume e possibilitar a vitória do PMDB de Nabor. E quando o jovem Jorge Viana se lançou candidato pelo PT, em 1990, apoiou entusiasmado e lançou um manifesto conclamando os acreanos a mais uma revolta na longa linha histórica iniciada um século antes. Participou de toda a campanha e das seguintes.

Quando fui diretor da Fundação Cultural, de vez em quando alguém avisava: o governador Mesquita chegou aí. Procurei sempre interromper qualquer reunião, adiar qualquer compromisso, dispensar quem estivesse em minha sala, para poder recebê-lo imediatamente. Comigo, o Barão jamais tomaria sequer um minuto de chá de cadeira. Tive sempre o maior prazer em conversar com ele. Depois das reclamações e críticas que fazia, e também das sugestões e orientações que dava, sempre me brindava com alguma jóia de sua memória privilegiada, um trecho da história do Acre e do mundo que tinha visto e vivido.

Vi nos sites da internet que muita gente importante faleceu neste final de semana. Não desfaço de ninguém, mas a partida do Barão Mesquita merecia ter sido notada no Brasil, mormente nesses tempos em que o Acre anda na mídia. Sua importância para que chegássemos até aqui foi grande. Nossa geração andou mais rápido porque foi empurrada pelos bons, os melhores da geração anterior.

Sinto-me grato e honrado por ter conhecido este gigante da história, o governador do Acre professor Geraldo Gurgel de Mesquita e rogo a Deus que lhe dê um bom lugar, ao lado dos justos.

13 agosto 2009

Toque de recolher

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Limpar a casa, abrir as janelas, regar as plantas que o verão acreano está forte e seco com seus dias quentes de sol soberano e suas noites frias de estrelas cintilantes. Molhar o dedo na água do açude e erguer ao vento, pra sentir de que lado sopra. Ler o livro antigo. Gengibre limpa, cidreira acalma, tabaco tira reima.
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Ver, ouvir e calar. Desvencilhar-se do emaranhado rasteiro, bater os sapatos ao pé da escada, olhar para cima. Como as onças, reunir todos os músculos ao redor de um ponto no solo antes de saltar. Minguar com a minguante para depois renovar tudo num momento.
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Num momento, tudo.

08 agosto 2009

Por falar em tempestades

O Subcomitê Zero, versão atualizada e zapatista da extinta Comissão de Baixo Nível, resolveu convidar o cantor-compositor-escritor-conquistador Chico Buarque de Holanda para ser candidato a vice-presidente na chapa de Marina Silva. Bom Conselho é uma opção de jingle para este momento da campanha.
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03 agosto 2009

Complexo de Lear

MARINA SILVA

DURANTE CURSO de especialização na Universidade de Brasília, estudei a obra "Rei Lear", de Shakespeare. Talvez a tragédia possa nos ajudar a entender um pouco a política brasileira.

Ao sentir-se velho, Lear decide abdicar da sua condição de rei, do enfadonho encargo de governar. Chama as filhas -Goneril, Regana e Cordélia- para dividir seus bens e poder, anunciando que seria mais agraciada aquela que lhe fizesse a maior declaração de amor. E impõe outra condição: enquanto vivesse, o rei deveria ter assegurado respeito, prestígio, cuidado e, quem sabe, até mesmo o amor de suas filhas e súditos. Quer deixar de ser rei sem perder a majestade.

Cordélia, a mais jovem, com quem o rei mais se identificava, e que muito o amava, não soube dizer o que sentia. As outras não sentiam amor pelo pai, mas eram hábeis na verve.

O que torna sua jornada trágica e dolorosa é que Lear se recusa a retornar ao que um dia foi, um simples homem, rei de si mesmo. Não quer morrer, tornar-se passado. Quer ser sucessivo como é a vida, reviver a fase do prazer de poder. Quer ter séquito e até mesmo um bobo para ninar seu desamparo.

Mas ninguém pode impunemente regredir sem ser atormentado pelo fantasma da repetição. No seu obsessivo desejo de ser amado, Lear agarra-se às palavras de Goneril e Regana. E rejeita amargamente a rebeldia de Cordélia, que só sabia sentir e não se sujeita a ter que fazer uma declaração de amor ao pai, obrigando-o a perceber esse amor no único lugar onde deveria estar: no resultado afetivo de suas relações pessoais.

Não por acaso desmorona o mundo de Lear. O que antes era tão bem definido, passa a ser ambivalente. Certeza e dúvida, coragem e medo, segurança e desamparo. A loucura de não mais saber quem é.

O alto preço por ter almejado e transformado em "ato" o desejo de retornar ao lugar onde um dia esteve e querer assumir a forma do que um dia foi. Ele só existe no mundo daqueles que o aceitam e o amam tal como é. E mesmo estes, incluindo Cordélia, não têm mais como aceitar seu governo senil. Até porque foi ele próprio quem decidiu abdicar de ser quem era para tornar-se quem não mais podia ser.

Tornou-se merecedor da reprimenda feita por meio das palavras do bobo: "Tu não deverias ter ficado velho antes de ter ficado sábio".
Genial Shakespeare, trágico rei, frágil humanidade de sempre, que não quer passar. Que infringe a ordem dos acontecimentos, sem o árduo trabalho de elaborá-los. Que desiste de ressignificar-se, e quer tão somente repetir o prazer da sensação vivida nas ilusões de majestade

22 julho 2009

Um avião quase parado no céu

Marina Silva

(Publicado na revista S/N, editada por Bob Wolfenson)

Quando penso em velocidade, e acho que com a maioria das pessoas é assim, tenho a idéia de algo acontecendo muito rapidamente, de um tempo e um espaço a serem vencidos. Embora velocidade também tenha a ver com lentidão, raramente pensamos nela com esse sentido.

Para mim, ela só é perceptível numa relação comparativa. Minha primeira percepção a esse respeito foi por volta dos seis anos, quando vi os primeiros tratores e caminhões na BR-364, então recém aberta, que passava perto da colocação Breu Velho do seringal Bagaço, no Acre, onde nasci.

Colocação é o espaço de vida e trabalho de cada família seringueira. Um seringal se compõe de várias colocações. Numa parte da colocação fica a clareira com a casa, a pequena roça de subsistência, árvores frutíferas, local para a criação de alguns animais e um terreiro. Em torno, numa certa faixa da floresta, identificam-se as árvores para o corte e retirada do latex que vai virar borracha. Anda-se diariamente cerca de 14 quilômetros, o que corresponde a fazer duas vezes o percurso que sai da casa e vai serpenteando por todas as árvores selecionadas, retornando ao ponto inicial. Na primeira passada faz-se o corte, na segunda a coleta. É o que se chama estrada de seringa.

Esse era o nosso universo espacial e temporal. De certa forma ele se transferia para dentro de nós e estabelecia formas de conhecimento do mundo.

A existência de carros rápidos, de que meu pai falava, só ficou palpável com a BR 364. Primeiro, meu pai abriu um caminho até a estrada. Depois mudou a casa para perto dela, num lugar ao qual demos o nome de Breu Novo.

Aí comecei a prestar atenção também nos aviões que passavam de vez em quando. Olhava para o céu e parecia que eles iam tão devagarzinho, de uma maneira tão suave, chegava a imaginá-los quase parados. O avião, o trator, os caminhões passaram a ser referências novas, diferentes do cavalo, da bicicleta. O caminhão, para mim, era de longe o mais rápido.

Passei também a associar velocidade a perigo. Minha mãe e minha avó diziam o tempo todo que era preciso ter muito cuidado. Aparecia um caminhão hoje, outro lá pela semana seguinte ou até mais, mas a criançada tinha que estar sempre atenta “pra atravessar a BR”. Mesmo naquele ermo, tinha-se que olhar para um lado, depois para o outro e só depois atravessar. E, ainda assim, com certo medo.

Mas o impacto maior de conhecer experiências e coisas diferentes de nossas práticas cotidianas, aconteceu quando vi pela primeira vez um fogão.

Desde uns dez anos de idade, eu acordava todo dia por volta de quatro da manhã para preparar a comida que meu pai levava para a estrada de seringa. A rotina era imutável e demorada: levantar, pegar gravetos no monte de lenha, colocar sernambi – pedacinhos de latex coalhado – para queimar no fogão de lenha, jogar nos gravetos por cima. Com lenha molhada, então, fazer o fogo era uma verdadeira batalha.

Todo dia preparava farofa. Às vezes com carne, mas quase sempre com ovo e um pouquinho de cebola de palha, acompanhada de macaxeira frita. Aí botava dentro de uma lata vazia de manteiga, com tampa.

Manteiga era comprada só quando minha mãe ganhava bebê. Meu pai encomendava no barracão – o entreposto de mercadorias mantido pelo dono do seringal – uma lata, pra fazer caldo d'água durante o período de resguardo. Por incrível que pareça, a manteiga vinha da Europa para as casas aviadoras de Manaus e Belém e dali chegava aos seringais do Acre. A lata era uma coisa preciosa. De bom tamanho, muito útil, tinha tampa e desenhos lindos e elegantes.

O ritual de fazer fogo, preparar o café e a farofa e entregar a lata a meu pai levava uns 45 minutos. O que eu sabia de cozinhar se resumia àquilo. Até que vi pela primeira vez um fogão a gás, em Rio Branco, quando tinha uns doze anos. Estava muito doente e fui com minha mãe. Ficamos na casa do meu tio, na periferia da cidade. Fiquei encantada com o fogão. Como era rápido! Subia de repente um fogo azul e era só botar a panela em cima!

Muito mais tarde, morando já em Brasília, estava atrasadíssima para uma votação no Senado e precisava comer alguma coisa antes de sair de casa. Programei o microondas para 45 segundos e fiquei na frente, estalando os dedos, agoniada, como se pudesse apressar ainda mais a máquina: vamos, vamos, vamos! E enquanto estava ali, nessa coisa meio maluca e ridícula, me veio de uma vez à mente a rotina do seringal. Me vi queimando o sernambi, a lenha, fazendo a farofa, preparando a lata de manteiga. O fogo vermelho e barulhento dos gravetos, a descoberta da chama azul do gás.

Acho que a vida toda fui manejando as coisas do tempo e da velocidade, sem perder o meu tempo e a minha velocidade internos. No meu aprendizado de vida, as coisas velozes sempre se associavam à cidade, e as mais vagarosas à floresta. De nossa colocação até o Piratinim, um dos barracões do Bagaço, eram onze horas de caminhada. Dali até a margem do rio, era mais uma hora. E da margem do rio para Rio Branco, em torno de dois dias e meio. Hoje se leva menos de uma hora, por asfalto, para vencer os 75 quilômetros daquele ponto até Rio Branco.

Em geral as pessoas me acham muito calma. Talvez isso tenha a ver com a minha conformação emocional, mas é também um jeito de me relacionar com as dimensões do cosmos, de tal modo que vou internalizando e conciliando a frequência tecnológica e o ritmo frenético da vida urbana e da política com a potência do rudimentar que faz parte de mim e sempre fará.

Na floresta, onde todo deslocamento demandava muito tempo, paradoxalmente recorríamos à velocidade do som para nossas necessidades de comunicação mais urgentes. Quando se queria avisar do nascimento de uma criança, sem ter que andar horas ou até dias pela mata, usava-se um código: dois tiros de espingarda significavam que nascera uma menina; três tiros, um menino. Se alguém morresse, eram sete tiros. E no último dia do ano, doze tiros para compartilhar a comemoração do ano novo.

Nosso totem tecnológico era o rádio a pilhas, um bem quase mitificado. Podia faltar tudo, menos pilha para o rádio. O nosso era da marca Canadian. Meu pai, minha mãe e minha irmã mais velha eram os que sabiam manejá-lo. Ficava bem alto, numa pequena plataforma na parede. Minha irmã tinha que subir no banco para alcançar e meu pai e minha mãe ficavam na ponta dos pés.

E ninguém mais podia mexer, para não prejudicar o ajuste e não dar chiado. Para meu pai, era sagrado ouvir a Voz do Brasil e os noticiários em português da BBC de Londres e da Voz da América. Minha mãe e minha irmã mais velha gostavam das novelas.

O rádio em si atraía muito minha curiosidade e mesmo com todas as advertências, algumas vezes não resisti e mexi. Levava cada carão, pois, é claro, desajustava as faixas e lá vinha o odiado chiado. Uma vez consegui desparafusar a tampa traseira para ver se havia gente dentro da caixa.

Meu pai gostava muito de informação. Minha mãe sempre pedia ao noteiro – o homem que fazia as contas do saldo dos seringueiros e anotava as encomendas de cada família – revistas velhas porventura descartadas pelos patrões, em Belém. De quando em vez, vinham revistas Manchete. Minha mãe separava as páginas mais bonitas ou com muitas fotos para forrar as paredes da casa, um costume dos seringueiros. Mas antes que ela recortasse tudo, meu pai lia tudo avidamente, mesmo sendo notícias velhas.

Nunca esqueci as fotos da morte do presidente Kennedy. Meu pai sentado no chão, com a Manchete aberta no colo, rodeado de crianças, lia em voz alta e explicava o acontecido. Ele já sabia, como fiel ouvinte da Voz da América, mas agora era diferente, tinha o peso das imagens. Ele dizia “presidente da América do Norte”, e não Estados Unidos. Das coisas que meu pai contou, o que mais me impressionou foi que, ao prenderem o suposto assassino, alguém teria gritado: “quebrem-lhe os polegares!”.

Só que, quando olhávamos fascinados as fotos de Kennedy na Manchete de novembro de 1963, já estávamos em 1968, cinco anos depois da tragédia de Dallas. Entre o acontecimento, a informação e a imagem, a completa percepção se arrastara por vários anos. É como se o fato tivesse viajado intacto pelo espaço, em cada detalhe: o estado de choque das multidões, o sangue do presidente, seus filhos tão pequenos, o corpo caído no carro. E de repente tudo isso aterrissou em nosso seringal, sem quebrar a emoção e o impacto, como se fosse uma época invadindo o domínio de outra.

Mas, afinal, o tempo que valia mesmo era o nosso, o das nossas circunstâncias. Não nos incomodamos de saber, com cinco anos de atraso, algo que já era História no restante do mundo. Nossa velocidade, vejo agora, não era veloz. E isso não tinha a menor importância.

08 julho 2009

05 julho 2009

Selma, trinta e uns abraços

Sem uma banda pra comprar presente, sem tempo nem pra escrever, peço as palavras do velho Caetano nesta canção que ele compôs quando ainda eras uma menina magricela nos barrancos do Quinze, que amostrou no aniversário de irmã dele e agora oferto em teu aniversário porque é bem a tua cara, sim, como dizem os acreanos, é mermo!