31 maio 2010

Os vivos e os mortos

Fui ao cemitério com Samuel, no enterro de seu Arnóbio Marques, pai do Binho. Ouvimos a fala emocionada de um homem que não era governador nem autoridade nem nada, mas simplesmente um filho se despedindo do pai. Binho acariciava os cabelos da mãe enquanto contava, com a voz entrecortada, uma ou outra coisa a respeito do velho Arnóbio, um sonhador cheio de utopias, inventivo, com a cabeça nas nuvens, aquele tipo de homem que emprega todos e bens economias numa idéia muito avançada para seu tempo e acaba em falência, mas depois, com muito trabalho e alguma sorte, consegue recuperar tudo –e arrisca de novo, sempre. Um daqueles gigantes que fizeram a história da Amazônia andar para a frente depois da guerra, quando a borracha se esgotava em lenta decadência e era necessário descobrir novos negócios, conhecimentos, técnicas, experimentos agrícolas e industriais, tudo o que pudesse movimentar a vida. Ainda bem que nunca nos faltou uma boa quantidade de sonhadores nesta província distante do mundo.

Aproveitando a comovente lição de história, levei meu filho para passear entre os mortos. Aqui, quase em frente ao jazigo da família Fecury, onde ficou seu Arnóbio, está o túmulo de Flávio Baptista, avô desse menino Flaviano Melo, um coronel dos negócios e da política, dono de metade da capital acreana nos idos de 1940. Ali, perto da entrada, a família Mansour, onde está meu saudoso professor Elias, um filósofo transportado direto da antiga Grécia para as margens do rio Acre. E poderosos políticos e ricos comerciantes e respeitados intelectuais, com suas virtudes e pecados, duas ou três histórias trágicas, meia dúzia de comédias, nada que manchasse as lajes e esculturas, que disso a chuva se encarrega -as cores da história o tempo cuida de desbotar.

Vimos também os avós do menino, é claro. A professora Lindaura em seu modesto túmulo amarelo dá lições de responsabilidade e dedicação ao trabalho. O velho Vieira, jornalista e advogado entre tantos outros ofícios, numa fila de importantes irmãos da maçonaria, conta causos de irreverência e boemia que no mundo de hoje só escandalizam as senhoras católicas mais idosas e recatadas.

Todos estão, como escreveu Manuel Bandeira, dormindo profundamente. O que deixaram de fazer talvez tenha agora mais peso do que aquilo que fizeram sobre a terra. Mortos, são todos sábios e aconselham gravemente aos vivos que passeiam em redor de seus ossos: tudo passa, meus filhos, tudo se acaba em pó que o vento carrega. E o mais é vaidade, só vaidade, nada mais.

13 maio 2010

Um momento

Tudo é tão indizível que acaba em silêncio. E essa gente toda, nós outros, tagarelando feito doidos. Se ao menos não tivesse essa friagem, esse vento seco e esse céu de um azul tão limpo, talvez as palavras servissem como embalagem para as coisas sólidas e quentes, coisas densas que impusessem sua existência inevitável e dolorosa. Mas o princípio do verão amazônico é uma alegria luminosa, como se Deus, descalço, pisasse em folhas.
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Um inventário do silêncio registra: vizinho varrendo o quintal, filhotes de cachorro brincando, crianças correndo, ônibus que passa, periquitos no coqueiro, mãe chamando filho para tomar banho, o martelo de alguém que conserta uma escada, alguma música incidental num rádio distante. Cabe mais, talvez, tudo a seu tempo.
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Cabe ouvir.